sábado, 11 de outubro de 2008

Quem foi Leal de Souza?

QUEM FOI LEAL DE SOUZA?

Diamantino Fernandes Trindade


Antônio Eliezer Leal de Souza nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul, em 24/12/1880 (algumas fontes apontam a data de 24/09/1880). Quando jovem, foi Alferes e participou da Guerra de Canudos. Cansado de sofrer prisões por combater o governo de Borges de Medeiros, desligou-se do quartel. Ao desligar-se do Exército, dedicou-se ao jornalismo, tendo sido redator de A Federação de Porto Alegre. Depois de algum tempo, foi para o Rio de Janeiro, onde cursou Direito, sem concluí-lo, porém. Nessa mesma cidade, teve destaque como diretor e repórter dos jornais A Noite, Diário de Notícias e A Nota.
Como repórter deu o furo sobre o assassinato de Euclides da Cunha.[1]
Freqüentava a roda literária formada por Olavo Bilac, Martins Fontes, Coelho Neto, Luis Murat, Goulart de Andrade, Alcides Maya, Aníbal Teófilo, Gregório da Fonseca e outros. Com relação à Luis Murat, Jorge Rizzini, no livro Escritores e Fantasmas, comenta:

Luis Murat, em 1893, aderiu à insurreição contra o Presidente Floriano Peixoto, através dos jornais O Combate e Cidade do Rio, o que o levou e ao seu companheiro, o poeta Guimarães Passos (ambos da Academia Brasileira de Letras) a fugir para a Argentina, onde passaram fome. Meses depois, não resistindo, Luis Murat regressou e apresentou-se às autoridades militares, que o condenaram à morte. Mas, o poeta não foi fuzilado. É que o comandante do batalhão participara de uma sessão mediúnica e um dos Espíritos comunicantes lhe pedira poupasse a vida de Luis Murat. Logo depois, Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”, concedia o perdão. Ao saber do fato o poeta converteu-se ao Espiritismo, a exemplo, aliás, de Bilac, Leal de Souza e Coelho Neto.

A imprensa periódica surgiu no Brasil no inicio do século XX. Mais precisamente em 1900, foi lançada a Revista da Semana. Vieram em seguida: O Malho (1902), Fon-Fon (1907) e A Careta[2] (1908), revista popular ilustrada com forte humor político. Leal de Souza foi diretor deste semanário que explorava o recurso das caricaturas, tão a gosto dos cariocas da época. Este periódico era prato obrigatório dos salões de barbeiro. Estas revistas traziam uma nova forma jornalística, ou seja, valendo-se mais da mensagem visual e do texto “leve”.
Fernando Góes, no livro Panorama da Poesia Brasileira, faz uma breve biografia de Leal de Souza:

Nascido em Livramento, Rio Grande do Sul, em 24 de dezembro de 1880, Antônio Eliezer Leal de Souza estudou na Escola Militar de Porto Alegre e na do Rio de Janeiro, e esteve como alferes na chamada Guerra dos Canudos. Mas abandonou a vida militar pelo jornalismo e a literatura e foi dos que, vindos depois da eclosão parnasiana, fizeram-se amigos e companheiros de Bilac e sua roda: Martins Fontes, Goulart de Andrade, Aníbal Teófilo... Fez parte da redação de vários jornais cariocas (A Notícia, A Noite, Diário de Noticias, A Nota), foi diretor de A Careta.
Acentuando o parnasianismo da mais expressiva coletânea de versos de Leal de Souza (Bosque Sagrado), que no conjunto considerou “um livro esplendido, fulgurante e vigoroso”, João Pinto da Silva dizia tratar-se de um parnasianismo... tropical, esclarecendo: “Este adjetivo, a meu ver, por si só o explica suficientemente; dá, com nitidez, uma idéia da sua abundância de seiva, dos seus contínuos estremecimentos de grande e tumultuosa vitalidade, e da violência da luz que lhe inunda os melhores capítulos”. Para o crítico gaúcho “esse vibrante, esse estonteador excesso de vida” constituía-se simultaneamente, no principal defeito e na mais expressiva qualidade do poeta, pois se lhe quebrava, “fragorosamente, a harmonia de certas linhas, prejudicando-lhe o brilho de não poucos aspectos”, tornava-o “mais nosso, mais brasileiro, mais da América meridional”.
Leal de Souza escreveu mais tarde dois romances e alguns livros sobre o espiritismo, - preocupação que já se encontrava presente em alguns passos do Bosque Sagrado - falecendo no Rio de Janeiro, em 1 de novembro de 1948.

Como poeta parnasiano mereceu louvores de Olavo Bilac. Escreveu romances e livros sobre poesia e as práticas espíritas. Foi o primeiro a escrever sobre a Umbanda.
Um importante escritor brasileiro faz referências elogiosas à Leal de Souza. Em 1918, o jovem Luis da Câmara Cascudo iniciou a brilhante carreira literária como colunista do jornal A Imprensa, em Natal, RN. Nesse periódico assinava a coluna diária intitulada Bric-à-Brac[3] onde escrevia pequenas criticas literárias. A crônica inicial, de 18 de outubro de 1918, que reproduzo na íntegra, deu origem ao seu primeiro livro Alma Patrícia, de 1921.

Depois de ter encantado meio mundo através do Bric-à-Brac, depois de tão lido e festejado, como Frei Antonio[4] ou Voltaire, Leal de Souza veio consolidar o seu nome literário com a publicação do Bosque Sagrado. Não resta dúvida de que Leal de Souza é um transviado da Velha Grécia de Praxísteles, neste ano terrível de crises e falta de carvão. Bosque Sagrado é uma invocação prodigiosamente feliz. Os mármores, flores e bustos de mulher aparecem e admiram, por entre a sonoridade rítmica dos seus versos perfeitos. Respira-se através das páginas do Bosque Sagrado uma atmosfera erudita. Os conceitos e rimas são naturais e perfeitamente espontâneos.
Ainda estavam vibrando no ar os aplausos deste livro quando Leal de Souza reaparece com a reunião das suas três conferências, dando-lhe o nome A Mulher na Poesia Brasileira. A não ser o monótono livro de Norberto de Souza, fez-nos um grande bem, lembrando velhos tempos e citando novos. A primeira parte de livro O Ideal Feminino dos Poetas, é um estudo de valor não só pela raridade no assunto, e pesquisas inteligentes, como também, pela justeza de conceitos e firmeza de opiniões. Para rebuscar os livros, era preciso um erudito; para compreender esses multiformes ideais, era necessário um poeta. Leal de Souza, reunindo esses dois requisitos, deu-nos a sua magnífica conferência Poetisas Brasileiras, segunda parte do livro, é um resumo simples e preciso das nossas poetisas. Diante de mim, passaram todas essas habitantes do Parnaso, desde Ângela do Amaral Rangel, nascida nos românticos tempos de 1725, até as expansões vibrantes de Gilka da Costa Machado.
Leal de Souza, imparcialmente, esparge flores sobre elas, à lapidaria de esfinge, a sonoridade dos versos de Laurita Lacerda, a nossa suave e mística Auta de Souza, todas têm a sua mancheia de rosas. Por entre as citações das poetisas, a prosa fluente de Leal de Souza rompe festivamente, e o seu magnífico poder sintetizante mostra-se através da “science inexorable de son espirit”, como diz o bom Saint Beuve. Terminando pela Musa Contemporânea, o poeta faz-nos parar no meio do mundo de conceitos e definições que da mulher fazem os espíritos bons ou razoavelmente medíocres. Anotando tão sabiamente o que se pensa da mulher, fazendo a sua defesa racional e lógica, é esta a terceira e, infelizmente, ultima parte do livro. Quer pelos seus artigos esparsos, conferências ou versos, Leal de Souza mostra insensivelmente a que grau de perfeição chegou o seu espírito e o seu caráter.
Seus artigos sobre o magistral e malogrado Annibal Theophilo tem tanto cunho de sinceridade que somos obrigados a venerar a memória do esteta de A Cegonha. Atualmente, na sua produção, a sua conferência sobre os ideais femininos, o poeta se refere com tal carinho aos velhos poetas que não parece um filho deste honesto tempo de egoísmo e orgulho.
O que para mim vale muitíssimo em Leal de Souza é esse reunir o útil de suas pesquisas literárias ao agradável de seus versos sonoros. Com tal norma de conduta, o sucesso não será um estímulo ao seu espírito, e sim uma recompensa ao seu trabalho.
Começando uma de suas conferências, Leal de Souza pede desculpas ao seu auditório, de o fazer subir ao um quinto andar para dicção de palestras como estas com que o poeta de Bosque Sagrado brindou o público carioca, que subiria em contentamento até o décimo terceiro.
Merece, pois, Leal de Souza todas as gentilezas e barretadas[5] dos jornais patrícios, por ter destoado da monotonia das obras mascas de escritores austeros.


O brilhante poeta Leal de Souza foi psicografado por Chico Xavier e o seu poema Morte e Encarnação foi publicado no livro Antologia dos Imortais, obra mediúnica, de 1963, que trata da imortalidade da alma. Transcrevo a seguir o poema:


MORTE E REENCARNAÇÃO

Morrer!... Morrer!... A gente crê que esquece,
Pensa que é santo em paz humilde e boa,
Quando a morte, por fim, desagrilhoa
O coração cansado posto em prece.

Mas, aí de nós!... A luta reaparece...
A verdade é rugido de leoa...
A floração de orgulho cai à toa,
Por joio amargo na Divina Messe.

No castelo acordado da memória
Ruge o passado que nos dilacera,
Quando a lembrança é fel em dor suprema...

Sempre distante o céu envolto em glória,
Porquanto em nós ressurge a besta fera
Buscando, em novo corpo, nova algema.

No mesmo livro, Chico Xavier e Waldo Vieira psicografaram Aura Celeste que, quando encarnada, foi levada ao Espiritismo pelo Dr. Adolfo Bezerra de Menezes. Leal de Souza, prefaciando a sua obra Vozes d’Alma, referiu-se a ela como A Grande Musa Moderna.
Como vimos anteriormente, o autor é citado por figuras ilustres da nossa literatura como Câmara Cascudo, Fernando Góes, João Pinto, Chico Xavier etc. Uma referência, no mínimo interessante, é feita pelo polêmico padre Oscar Quevedo no livro Os Mortos Interferem no Mundo? Volume 1. No primeiro capitulo da referida obra que trata de efeitos físicos e casas mal-assombradas, cita a conferência de Leal de Souza, Transposição dos Umbrais, de 1924 e narra:


Um escritor famoso

Alcides Maya[6], ensaísta do Rio Grande do sul, chegou à Academia Brasileira de Letras. Foi também deputado federal.
Entre os espíritas foi bastante exaltado quando tomaram conhecimento dos fenômenos que manifestou...

1911, uma tarde, às 16 h, no Rio de Janeiro. Os três participantes da roda do chimarrão gaúcho viram como Alcides Maya e o sofá em que estava sentado foram levantando-se no ar, juntos, lentamente...Quando o sofá parou no ar, Alcides pulou no chão; o sofá continuou a metro e meio de altura. Observaram atentamente, apesar ou precisamente pelo nervosismo, tocaram, e por fim viram o sofá voltando devagarinho ao assoalho. Uma das testemunhas era um pastor protestante. Outro, o jornalista e poeta, Leal de Souza.

Alcides Maya havia muito tempo estava abalado dos nervos. Precisando do amparo de um amigo leal, ninguém melhor do que Leal de Souza transladou-se à elegante pensão onde residia Maya. Na primeira noite, por volta das 22 horas, Souza ouviu violentas e repetidas batidas na porta. Seria no apartamento ao lado? Souza fechou a porta que dava da salinha ao corredor e voltou aos seus aposentos. A cama de ferro começou a erguer-se do chão... Souza pulou, e a cama desceu novamente sem fazer barulho. Deitou-se de novo, e pela segunda vez a misteriosa telecinesia, cama e ocupante, juntos, bailando no ar. Então, enquanto o criado-mudo se inclinava, sem cair!, Souza ouviu as mesmas batidas na porta do apartamento contíguo, alugado pelo Presidente da Assembléia Legislativa Estadual. Maya foi ver o que acontecia: não havia ninguém no corredor, não havia ninguém no aposento ao lado. Naquele andar, só estavam Maya e o próprio Souza. Maya explicou então ao amigo que nos quatro apartamentos daquele segundo andar freqüentemente aconteciam fenômenos esquisitos...

O quarto inquilino daquele andar, não agüentando mais, foi embora no dia seguinte de manhã.

O apartamento vago foi ocupado por um turista inglês. Só ficou lá uma noite. De manhã pediu a conta e “fugiu” espavorido.

Também não agüentou mais o presidente da Assembléia.

Os fenômenos aconteciam quase diariamente, costumavam começar às duas da tarde (hora da sesta!) e recrudesciam de noite até alta madrugada. Muitos curiosos iam à pensão para observar os fenômenos, mas não se hospedavam.

Ø Detalhe importante:

Alcides Maya viajou. Chegaram novos inquilinos e não aconteceu nenhum dos estranhos fenômenos durante meses. Alcides Maya voltou; e foi aquele pandemônio naquela mesma noite. Os inquilinos apavorados fugiram para a rua. Sem tempo de vestir-se, em pijamas... [7]

Este fato revestiu-se de muita curiosidade por parte da imprensa. No livro Escritores e Fantasmas encontramos maiores detalhes sobre o fenômeno: Alcides Maya, o admirável estudioso do humor na obra de Machado de Assis, é um exemplo vigoroso. Positivista empedernido, o ensaísta gaúcho, no entanto, foi excelente médium de efeitos físicos, o que, aliás, o deixava aborrecido, pois os fenômenos o colocavam em situação desagradável perante os amigos... Os fatos vividos por Alcides Maya revestem-se de comicidade devido à contundência dos mesmos... Vejamos alguns.

A pedido do próprio Alcides Maya, o poeta Leal de Souza mudara-se da Rua Senador Vergueiro para a pensão da Rua Buarque de Macedo, 52, onde vivia o ensaísta. Alegara Alcides Maya que estava há tempos sofrendo uma crise nervosa e precisava de um amigo ao seu lado. Instalado na pensão, Leal de Souza, em seu quarto, logo no primeiro dia sentiu os cabelos se arrepiarem. Eram dez horas da noite e estava ele no quarto, com a porta semicerrada. De súbito, alguém bateu forte, insistente. Despreocupado, Leal disse, cordialmente:
- Entre!
E ninguém entrou; pelo menos, aparentemente. Mas, atento, ouviu certos passos se dirigirem da porta até o ponto em que se encontrava. Como nada visse pensou: “São passadas no aposento ao lado”. E, como tivesse muita certeza, tratou de fechar a porta do corredor. De volta ao seu aposento, tornou a ouvir pancadas, agora na porta que dava comunicação ao quarto vizinho, onde estava instalado Francisco Marcondes, então presidente da Assembléia do Estado do Rio. Não acreditando em fantasmas, saiu Leal de Souza, mais uma vez, do quarto e foi procurar o incômodo vizinho, a fim de pedir silêncio. Mas, Francisco Marcondes não se encontrava na pensão...”Bem, pensou Leal, ele sacudiu a porta e em seguida saiu...” –e deitou-se, sem mais delongas.
Foi quando, para grande espanto seu, viu a própria cama levantar-se do solo. Rápido, deu um pulo. E o leito, que era de ferro, desceu, então, suave ao assoalho. Tornou a deitar-se e, de novo repetiu-se o fenômeno.
- Estou sofrendo dos nervos! Pensou. E correu até o quarto de Alcides Maya e contou-lhe o ocorrido, pedindo ao ensaísta gaúcho que, no dia seguinte o acompanhasse até um especialista de moléstias nervosas. Mas Alcides Maya o sossegou, confessando que nos quatro cômodos daquele segundo andar ocorriam, diariamente, tais fenômenos.
- Mandei chamar você por causa deles. Queria saber se você, sem ser avisado, os constataria.
No dia seguinte, um dos inquilinos mudou-se da pensão e em seu quarto instalou-se um inglês, à noite. Mas, pela manhã, o inglês, com os olhinhos muito arregalados, fez as malas, pagou a conta e despediu-se apressado.
Tendo Francisco Marcondes, por sua vez, achado melhor regressar à sua fazenda, ficaram no segundo andar, apenas, Alcides Maya e Leal de Souza, cujos quartos eram separados por dois aposentos. Eram nove horas da noite e Leal de Souza se encontrava deitado, lendo uma obra, quando sentiu uma desagradável sensação de frio no pé. Ao procurar a coberta para aquecê-lo, viu, estupefato, “uma coluna de luar leitoso a alvejar sobre a cama”. Olhando firme, observou que o “luar” foi tornando-se consistente e, aos poucos, tomou a forma de uma figura humana. E, não sabendo como agir, Leal de Souza, trêmulo, abandonou o quarto.
Interessante é que esses fenômenos ocorriam, quase sempre, ás duas horas da tarde e geralmente iam até a madrugada. E eram atestados por pessoas estranhas que, curiosas, iam à pensão, mas nada sabiam explicar:
Certa vez, no quarto de Alcides Maya tomavam mate-chimarrão um pastor protestante, Leal de Souza e o ensaísta gaúcho. Trocavam idéias, naturalmente sobre a bebida do Rio Grande do Sul, quando o sofá, sem aviso prévio, pôs-se a subir, devagarinho, com Alcides em cima; como um saci Alcides pulou ao chão: e o sofá continuou no ar, desafiando a lei da gravidade. Então, todos se puseram a discutir o fenômeno.
- Isto é o efeito de um abalo sísmico, disse o pastor, mas, tão nervoso, que não pensou que se fora um abalo o sofá não devia continuar no espaço, é evidente.
- Não pode ser abalo, discordou, Alcides Maya, um tremor de terra sacudiria os outros móveis e abalaria as paredes!
Quando o sofá, enfim, pousou sobre o assoalho sem provocar ruídos, o pastor protestante saiu-se com esta:
- Meus amigos, só há uma explicação para o caso. Este sofá não se levantou. Nós tivemos um momento de alucinação!
E, assim, o ingênuo pastor explicou, definitivamente, a ação dos espíritos no plano físico.
É indiscutível que o excelente médium de efeitos físicos era Alcides Maya. Quando ele e Leal de Souza desocuparam os quartos, novos inquilinos vieram e nada de anormal se verificou. Todavia, passados dois meses, Alcides regressou à pensão e, nessa mesma noite, foi um desastre, para os inquilinos incautos. Em seus quartos os objetos tremiam, luzes brilhavam dentro da escuridão, pancadas sacudiam as portas; um autentica sessão de efeitos físicos! E o resultado foi cômico; alucinados com que viam e ouviam, os inquilinos, em trajes menores, se puseram a descer a escadaria, procurando a porta da rua...
Infelizmente, Alcides Maya, talvez por temer sua reputação literária (era da Academia Brasileira de Letras) não nos deu noticia de outros casos que servira de instrumento aos espíritos. Quer dizer: preferiu a hipotética e frágil imortalidade acadêmica à imortalidade contundente dos espíritos...
Quanto a Leal de Souza, a partir desta data passou a estudar as obras de Allan Kardec, tornando-se espírita dedicado.

A sua vivência com Olavo Bilac foi intensa. No livro Escritores e Fantasmas, de Jorge Rizzini, no capítulo Olavo Bilac e o Espiritismo encontramos:

Foram muitos os intelectuais brasileiros que presenciaram fenômenos espíritas e se converteram; e inúmeros os que, por causa dos fenômenos, não quiseram ouvir falar de Espiritismo... Olavo Bilac, devido a uma trágica visão premonitória, quase foi um deles.
Conta o poeta e jornalista Leal de Souza que, em 1915, os intelectuais Martins Fontes, Goulart de Andrade, Aníbal Teófilo, o próprio Leal de Souza e Luis Murat costumavam jantar, diariamente, em companhia de Olavo Bilac nos restaurantes da cidade. Eram reuniões alegres, durante as quais se discutia literatura, contavam-se casos cômicos e... comia-se fortemente. Mas, as reuniões perderam o brilho, todos começaram a sentir-se tristonhos, ninguém sábia o porquê. Dir-se-ia um bando de poetas fúnebres. Bilac, certo dia, chegou a refletir em voz alta: “Parece que a morte paira sobre nós!” – e o poeta tinha razão, como veremos.
Ora, dias depois, jantavam todos na residência de Alexandre Lamberti Guimarães, cunhado de Olavo Bilac. Jantar risonho, como os de outrora. Em dado momento, porém, Bilac, alegando indisposição, cruzou os talheres: seu rosto tornara-se grave, pálido, o grande poeta parecia sentir-se mal. Mas, pediu, à meia-voz, que não se incomodassem, continuassem a jantar, não fizessem perguntas... Depois explicaria. Quando terminou a refeição, levantou-se, chamou Alexandre Lamberti e outros amigos e lhes disse baixinho:
- “Eu vi, repentinamente, naquele canto (e apontou) o Aníbal cair ensangüentado!”
E, nervoso, cheio de aflição, o poeta tornou a afirmar:
“- Vejo-o, de novo, naquele canto, caído e ensangüentado!”
Dias depois, Aníbal Teófilo tombava morto, ensangüentado (como vira Bilac) no saguão do Jornal do Comércio: fora assassinado a tiros de revólver por um intelectual, famoso, também na política internacional: Gilberto Amado. Cumprira-se a visão mediúnica de Olavo Bilac.

Este relato consta do opúsculo[8] editado em 1941 pela Federação Espírita Brasileira intitulado Transposição de Umbrais. Trata-se de uma conferência de Leal de Souza realizada naquela Federação em 21 de setembro de 1924. Contém apenas treze páginas. Neste opúsculo conta Leal de Souza que o poeta Aníbal Teófilo, dias antes de morrer, tivera o seguinte sonho:

Era noite cerrada, de espessa treva. Caminhando ao longo da muralha do cais da Glória, Aníbal ouviu um barulho de remos batendo na água, e, parando-se, viu encostar-se ao paredão um bote negro, de onde saltaram marinheiros vestidos de negro, que o cercaram.
“- Tens medo? Perguntou-lhe um deles”.
“- Não respondeu Aníbal”.
“- Vem conosco”.
“Embarcando no bote funéreo, Aníbal, com os marinheiros enlutados, atravessou, sobre as águas cheias de sombras, o silêncio escuro da noite, e longe, no meio da Guanabara trevosa, passou-se para um navio inteiramente negro, a cujo lado, junto à escada, encostava o bote. Ao percorrer o interior desse navio funerário, Aníbal constatou com surpresa, que os camarotes e beliches eram túmulos com epitáfios, e lendo, em uma lápide, o nome de seu pai, abriu-a. Apareceu-lhe então, a amada figura paterna, que lhe disse: Meu filho está próxima, muito próxima, a tua última hora. Fiz quanto pude para salvar-lhe, mas nada consegui. Vai, e prepara-te para morrer”.
“Disse e desapareceu. Aníbal, afastando-se desse camarote, ou sarcófago, regressou, no mesmo bote, a terra, onde o deixaram os marinheiros misteriosos. E despertou”.
Aníbal, que não tinha religião, tomou, porém, o sonho a sério, acreditando que iria morrer em breve, não obstante seu corpo hercúleo, E, realmente, morreu dias depois assassinado: cumprira-se seu sonho funéreo, que era um aviso dos espíritos, confirmando, aliás, a visão de Bilac, durante o jantar com Aníbal e outros. Leal de Souza, posteriormente, com médiuns diversos, obteve comunicações do espírito de Aníbal Teófilo.

Este fato, que chocou a sociedade carioca, teve alguns antecedentes que merecem ser citados. Conforme relato de Raimundo Menezes, em 1915, por iniciativa de Olavo Bilac, foi fundada uma agremiação denominada de Sociedade dos Homens de Letras. No salão nobre do Jornal do Comércio, realizou-se, na tarde de 19 de junho de 1915, a tradicional Hora Literária, organizada por aquela sociedade. O salão ficou repleto de senhoras, jornalistas, admiradores e adeptos da literatura. Os diretores da prestigiosa sociedade, em comemoração ao sucesso da tarde alegre e festiva, reuniram-se no vestíbulo do periódico para uma fotografia para a qual posaram: Heitor Lima, Goulart de Andrade, Luis Edmundo, Olavo Bilac, Ciro Costa, Augusto de Lima, Martins Fontes, Olegário Mariano, Bastos Tigre, Sarandi Raposo, Emilio de Menezes, Oscar Lopes, Sebastião Sampaio, Aníbal Teófilo, Humberto de Campos, Gregório da Fonseca e Leal de Souza. Todos se dispuseram a sair, quando, de repente, ouviram-se tiros de revólver, que partiam do saguão do jornal. Todos viram, então, tombado no chão, perfurado de balas, o poeta Aníbal Teófilo. Ele havia se tornado inimigo gratuito de outro importante escritor Gilberto Amado, então deputado federal por Sergipe, e que, naquele instante lhe tirou a vida.

Do opúsculo Transposição de Umbrais, cito algumas palavras de Leal de Souza sobre a materialização de espíritos que são uma profissão de fé:

Ombro a ombro com Coelho Neto[9], consultando-nos sobre o que nós dois testemunhávamos, vi, repetir-se, muitas vezes em poucas horas, o transcendente fenômeno da materialização. Plenamente materializados, Espíritos, identificados pelos circunstantes, tocaram as nossas mãos, ofertando-nos flores, produziram luzes para que lhe examinássemos a carnação, os tecidos das roupagens, a maneira de andar. Seria eu indigno desses incomparáveis favores, se, para alardear enganosa superioridade intelectual, recusasse aceitar os resultados e as conseqüências das minhas próprias investigações.


Leal de Souza casou-se, em 03/10/1918, com Gabriela Ribeiro Leal de Souza.
Faleceu em 01/11/1948 no Rio de Janeiro.



OBRAS PUBLICADAS

Ø O Álbum de Alzira (Porto Alegre, 1899)
Ø Editou, em Santa Maria (RS), 1915-1917, o Almanaque Regional
Ø Bosque Sagrado (Rio de Janeiro, 1917)
Ø A Mulher na Poesia Brasileira (Rio de Janeiro, 1918)[10]
Ø A Romaria da Saudade (Rio de Janeiro, 1919)
Ø Canções Revolucionárias (Rio de Janeiro, 1923)
Ø No Mundo dos Espíritos (Rio de Janeiro, 1925)
Ø O Espiritismo, a Magia e as Sete Linhas da Umbanda (Rio de Janeiro, 1933)
Ø A Rosa Encarnada – romance espírita (Rio de Janeiro, 1934)
Ø Biografia de Getúlio Vargas (Rio de Janeiro, 1940)
Ø Transposição dos Umbrais (opúsculo editado pela Federação Espírita Brasileira, editado em 1941, sobre a conferência proferida na mesma federação em 1924, Rio de Janeiro)

No site www.mandaladosorixas.com é possível fazer o download gratuito do livro Antônio Eliezer Leal de Souza: o primeiro escritor da Umbanda.


[1] Euclides da Cunha nasceu, em 20 de janeiro de 1866, na fazenda Saudade, no arraial de Santa Rita do Rio Negro (hoje, Euclidelândia), em Cantagalo (RJ). Participou, como repórter do Jornal O Estado de São Paulo, da Guerra dos Canudos. Viu o final da guerra, encerrada aos 5 de outubro de 1897. Voltou abalado, fazendo uma promessa: vingar o extermínio de Canudos. Os Sertões, seu livro vingador, começava a nascer. Foi assassinado, em 15 de agosto de 1909, pelo cadete Dilermando de Assis, da Escola Militar, que mantinha um caso amoroso com a sua esposa Anna Emilia Ribeiro.
[2] O Dicionário Literário Brasileiro cita que Antonio Eliezer Leal de Souza utilizava o pseudônimo Careta. Afrânio Coutinho e J. Galante Sousa citam que ele utilizava também o pseudônimo Voltaire.
[3] É um termo antigo para objetos ou ornamentos decorativos (nota do autor).
[4] Este era outro pseudônimo de Leal de Souza (nota do autor).
[5] Saudação que se faz tirando o barrete ou o chapéu da cabeça (nota do autor).

[6] Alcides Castilho Maya (São Gabriel, 15 de outubro de 1878Rio de Janeiro, 2 de outubro de 1944) foi um jornalista, político, contista, romancista e ensaísta brasileiro. Escrevia artigos na Revista A Careta com o pseudônimo de Guys (nota do autor).

[7] SOUZA, Leal. Transposição dos Umbrais. Conferência feita na Federação Espírita Brasileira, em 21/09/1924, FEB, 1936, p.12-15.
[8] Livreto.
[9] Henrique Maximiano Coelho Neto (Caxias, 21 de fevereiro de 1864Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) foi um escritor, político e professor brasileiro. Fez parte do grupo de boêmios que abrangia figuras da monta de Olavo Bilac, Luís Murat, Guimarães Passos e Paula Ney (nota do autor).
[10] Esta se tornou uma de suas principais obras sendo constituída por três conferências do autor, realizadas no salão nobre do Jornal do Commércio do Rio de Janeiro: 1) O Ideal Feminino dos Poetas, em 4 de outubro de 1913; 2) Profetisas Brasileiras, em 26 de agosto de 1914; 3) Musa Contemporânea, em 4 de setembro de 1915.

Um comentário:

Anônimo disse...

muito interessante estas historias de homens ilustres que nos desta epoca nao tivemos o prazer de conhecer. Mas o fazemos agora, atraves do livro No Mundo dos Espiritos.