quarta-feira, 12 de agosto de 2009

AS REVISTAS DE UMBANDA E A UMBANDA NAS REVISTAS

Diamantino Fernandes Trindade


Algumas revistas umbandistas podem ser encontradas na atualidade nas bancas de jornal. Muitas tentativas de manter esses periódicos ativos foram infrutíferas devido ao investimento financeiro sempre alto e com poucos patrocínios. Um exemplo é a importante revista Seleções de Umbanda, publicada por Omolubá juntamente com Israel Cysneiros, falecido em 1985, que circulou de 1975 até 1977. Outra revista que circulou por vários anos no Rio de Janeiro foi Kabala, dirigida por Domingos M. S. Ayroza e publicada pela Editora Revista do Capitão Atlas. No número 95, de julho de 1962, comemorativo do oitavo aniversário do periódico, aparece uma matéria escrita por João de Freitas na coluna Umbanda em flashes:

A dialética exige do orador conhecimentos gerais para que num diálogo ele argumente com precisão através do raciocínio claro e preciso.
Na Umbanda, o dialético precisa de conhecer história universal, de mitologia, de teologia, de doutrina, e, sobretudo, das leis,que regem o Universo. Sem tais requisitos ele se transforma em simples e intolerável demagogo, em palrador sem méritos, em veiculo de excitação das paixões coletivas.
Eis porque o demagogo é sempre visto como a um biltre que da lisonja e do louvor barato faz dos ingênuos e dos simplórios a escada de salvação para a sua ancestral mediocridade.
Atraídos pela cifra de milhões de adeptos, dessa religião que vaga sem norte por falta de um órgão de cúpula, pululam em todo território nacional inflamados oradores, sem lastro moral e intelectual que os credenciem, como candidatos a prefeitos, a deputados e a vereadores. Exploram a parvoíce de certos chefes de terreiro e a ingenuidade de algumas babás que não sabem distinguir a verdade da impostura, a decência da indignidade e a compostura da insensatez. É nesta hora que assistimos, com profunda tristeza, a inteligência, a cultura e o saber de muitos homens responsáveis pelos destinos da Umbanda em estarrecedora ausência.
É a dialética umbandista perdendo terreno para a demagogia solerte!
É nesta hora, repetimos, que se faz sentir a falta de um órgão de cúpula estadual para indicar seus candidatos, autênticos umbandistas, de inegáveis méritos. Somente assim a Umbanda ver-se-ia livre dos aventureiros de todos os matizes; dos pseudos lideres e dos chefes frustrados que agem de socapa[1] por lhes ter fugido das mãos a afortunosa ensancha[2] de empunhar o cetro de sonhado encanto; dos tartufos[3] e dos bifrontes[4] que se bandeiam para as hostes dos despeitados dificultando o trabalho hercúleo de uma minoria de abnegados de respeitáveis credenciais.
Todavia a comunidade umbandista, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos, através dos dirigentes esclarecidos das Tendas e Terreiros, não se deixará embair[5] pelas promessas dos demagogos.
Ela sabe, tanto quanto nós, por que tais espécimes são visceralmente contrários à criação de um órgão de cúpula.
De qualquer maneira, porém, a organização controladora virá por que a ordem emana das camadas superiores.

Apesar da criação de diversos órgãos de cúpula, pouca coisa mudou desde então. Os falsos lideres continuam pululando e tirando proveito da vaidade cada vez maior dos chefes de terreiro que buscam sempre migalhas de poder para inflar o seu ego.
O mesmo número do periódico noticiava o lançamento da obra Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda, de W. W. da Matta e Silva:

W. W. da Matta e Silva, nome internacionalmente conhecido, acaba de brindar as letras umbandistas com mais um de seus famosos livros – Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda – verdadeiro repositório de ensinamentos para neófitos, adeptos, estudiosos e praticantes da Umbanda.
O livro, desde sua feitura material, edição da Livraria Freitas Bastos, em ótimo papel, bem impresso, agrada em cheio, cativa o leitor, pela variedade extraordinária de assuntos ligados à Umbanda que, como revela o autor, está, como Deus, em toda parte de nosso planeta e tudo penetra e influencia, de tal sorte que tudo quanto até hoje foi dito e escrito é preâmbulo, ainda, de grande revelação.
No entanto, todo esse imenso cabedal de mistérios e práticas nada apresenta de inacessível ao vulgo, pois W.W. da Matta e Silva tem a magia de dissertação fácil e fluente, tornando corriqueiros os assuntos mais áridos. É um mestre do povo neste setor e procura elevá-lo com a mais sadia doutrinação moral e prática. Parabéns a W. W. da Matta e Silva e à Editora Freitas Bastos por mais este ótimo lançamento.

Quero registrar a minha homenagem ao irmão Demétrio Domingues, desencarnado em 2007, que por mais de dez anos publicou Umbanda em Revista,[6] com periodicidade mensal, onde divulgava os principais eventos umbandistas brasileiros, além de possibilitar que outros irmãos pudessem se manifestar por meio de suas matérias.
O número 117 apresenta uma reportagem relativa ao 6o Encontro de Chefes de Terreiro realizado pela Associação Paulista de Umbanda em 1985. Nesse evento Diamantino Fernandes Trindade representou a Federação Umbandista do Grande ABC e proferiu palestra sobre as origens da Umbanda no Brasil.
No site do SOUESP[7] encontramos o seguinte texto escrito por Ronaldo Linares em agosto de 2007, publicado no Jornal Icapra [8] de agosto de 2007:

Para tristeza de todos nós, faleceu no ultimo dia 24 de julho de 2007 o babalaô Demétrio Domingues, diretor-presidente da Associação Paulista de Umbanda. Homem de luta, de trabalho e de muita dedicação à causa umbandista.
Demétrio Domingues criou uma revista umbandista, na década de 80 onde em cada edição homenageava uma personalidade umbandista chamando-as de “Cacique da Umbanda”. Hoje, com o coração de luto despeço-me dele; do maior Cacique da Umbanda.
Demétrio Domingues foi meu companheiro de microfone por vários anos em meus programas: Umbanda em Marcha; Ronaldo fala de Umbanda; Momento de Prece.
Esteve comigo em meu programa da TV Bandeirantes (Programa Xênia Bier) e também na TV Gazeta.
E sempre tinha algo construtivo, positivo e com muito entusiasmo para estimular a família umbandista.
O grande cacique foi a alavanca mestra da Criação do Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo. Foi dele a idéia de juntar as Federações então existentes, em uma instituição idônea, que pudesse cuidar da Umbanda Paulista. Foi ele que convenceu o então coronel Nelson Braga Moreira a assumir o comando do SOUESP.
Foi por suas mãos que me aproximei do SOUESP e, posteriormente fui nomeado pelo já então, Coronel Nelson Braga Moreira, porta-voz oficial do Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo.
Foi o grande Cacique Demétrio o arquiteto do primeiro e segundo Congresso Paulista de Umbanda realizados na Câmara Municipal de São Paulo.
Foi ele também que organizou na Assembléia Legislativa “O Encontro sobre a Umbanda e a Constituinte” [9] e, mais do que isso, foi o único presidente da Federação até essa data, que enquanto a minha pesquisa sobre a origem da Umbanda se realizava, demonstrou interesse em auxiliar.
Posteriormente o Doutor Estevam Montebelo e o General Nelson Braga Moreira também procurarem ajudar e, quando conclui meu trabalho e apresentei-o à mesa diretora do SOUESP, as provas de que a primeira Tenda de Umbanda do Brasil fora a fundada por Zélio Fernandino de Moraes, estabelecendo definitivamente que o trabalho realizado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas fora o pioneiro da Umbanda. Foi de Demétrio Domingues, que recebi o primeiro abraço de congratulações pelo trabalho realizado.
Lembro ainda que a convite de Demétrio e do General Nelson Braga Moreira, recebi a incumbência de criar uma organização federativa no ABC paulista, foi assim que nasceu a Federação Umbandista do Grande ABC, organização que era um pouco “filha” de Demétrio, (que assinou sua ata de fundação), na mesma época e sob as mesmas indicações surgiram:
A própria Associação Paulista de Umbanda; A Federação Umbandista da Grande São Paulo; A Federação Regional Umbandista da Zona Oeste de São Paulo e a Federação Umbandista de Guarulhos.
De todos esses progressistas eventos, Demétrio participou diretamente e foi ele também, quem conseguiu colocar a primeira grande Imagem de Yemanjá no litoral Paulista, a estátua da Praia Grande.
Demétrio Domingues era, na intimidade, um grande companheiro. Quando provocado era grosso como um toco de açougueiro, mas da mesma forma que meu Pai no Candomblé, o saudoso Joãozinho da Goméia, tinha um coração de mel, dava e deu tudo de si pela família e pela causa umbandista; deu realmente tudo até mesmo a própria vida.
Hoje ele esta provavelmente propondo a Oxalá alguma forma de tornar mais fácil e mais alegre a vida do pobre povo brasileiro.

Umbanda em Revista circulou, com distribuição gratuita, durante 10 anos até 1985. Em abril desse ano, Demétrio Domingues uniu forças com o conceituado editor Bartolo Fittipaldi e a DINAP [10] para lançar a Revista Umbanda Verdade que era uma versão ampliada e melhor elaborada de Umbanda em Revista. Infelizmente teve vida curta.
Na atualidade, o principal periódico do gênero é a Revista Espiritual de Umbanda, [11] publicação bimestral, brilhantemente editada por Marques Rabelo e pela Jornalista Virginia Rodrigues. No site <http://www.girasdeumbanda.com.br> podemos ler:

UM EXEMPLO A SER SEGUIDO
Por Alexandre Falasco
O trabalho realizado por Marques Rebelo e sua equipe com a Revista Espiritual de Umbanda, é sem dúvida nenhuma, um exemplo a ser seguido por todos que fazem parte de nossa religião. Digo isso pela vontade de divulgar a Umbanda, com imparcialidade, com amor, e principalmente com a verdade. O religioso de Umbanda tem em minha opinião, obrigação de conhecer este trabalho, pois sem dúvida trará muitos conhecimentos sobre o que está acontecendo no universo umbandista, coisas que muitas vezes nem tomamos conhecimento por, até então, não existir um veículo de mídia assim e por nos confinarmos ao pequeno universo de nosso templo.
A única coisa que pode ser dita deste trabalho, um verdadeiro documento de nossa fé, é que a qualidade encontrou a disposição, a oportunidade encontrou o preparo.Parabéns Marques Rebelo, Virgínia G. Rodrigues e toda a equipe da Revista Espiritual de Umbanda, pelo trabalho desenvolvido em prol de nossa cultura.

Em novembro de 2008 a Revista Espiritual de Umbanda publicou primorosa edição especial comemorativa dos 100 anos da Umbanda. Transcrevo a seguir o editorial dessa edição:

EDITORIAL

Em cem anos de culto de Umbanda Branca, após 36.525 dias de anunciada, em 15 de novembro de 1908 sob a roupagem fluídico-energética de um caboclo brasileiro, perguntamos:
Quantos templos seguem o ritual da Umbanda Branca do Caboclo das Sete Encruzilhadas, que faz 100 anos no dia 15 de novembro de 2008?

Um momento de reflexão: Irmãos umbandistas, não somos seita nem partido político; não fazemos sacrifícios de animais nem vivemos de dízimos. Vivemos da caridade de nossos médiuns, e praticamos a caridade para viver o nosso real compromisso: nosso resgate espiritual firmado ao reencarnarmos, através do trabalho do amor ao próximo. Trabalhamos pelo crescimento da consciência evolutiva, expressa através das mensagens de nossas Entidades, sejam Caboclos ou Pretos-Velhos.
E foi no dia 15 de novembro, através do médium Zélio Fernandino de Moraes, que o Caboclo das Sete Encruzilhadas apresentou seu ritual de Umbanda, com o objetivo expresso na prática da caridade mediúnica, para o crescimento espiritual – “Umbanda, a manifestação do Espírito para a caridade”.
No dia 16 de novembro de 1908, na primeira sessão realizada na casa de Zélio de Moraes, o Caboclo anunciava que se iniciava, naquele momento, um novo culto em que Espíritos de velhos africanos, que haviam servido como escravos e que, desencarnados, não encontravam campo de ação nos remanescentes das seitas negras, dirigidas quase exclusivamente para trabalhos de feitiçaria, e os índios nativos da nossa terra, poderiam trabalhar em beneficio de seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social. A pratica da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a característica principal desse culto, que teria por base o Evangelho de Jesus e como Mestre Supremo o Cristo – Oxalá.
Os participantes estariam vestidos de branco e o atendimento seria totalmente gratuito.
O Caboclo das Sete Encruzilhadas não admitia atabaques e nem mesmo palmas nas sessões. Apenas os cânticos, muito fortes e ritmados, para a incorporação dos Guias e manutenção da Corrente Vibratória. Capacetes, adornos, vestimentas de cores, rendas e lamês não seriam aceitos nos templos que seguissem a sua orientação. O uniforme era branco, de tecido simples, e as guias usadas deveriam ser apenas as que determinavam a Entidade manifestada. Todo esse ritual é até hoje seguido pela Tenda Nossa Senhora da Piedade, a primeira fundada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas.
O objetivo principal do novo culto que se apresentava estava no resgate por meio da caridade, praticada pelos Espíritos através de seus médiuns, e a caridade do médium para com o seu irmão consulente, objetivando o equilíbrio das forças vitais do corpo espiritual.
Irmãos umbandistas, conclamamos por reflexão! A prática da caridade não deve ser constituída de egoísmos, pois acreditamos no crescimento espiritual da humanidade pela evolução do Espírito.
Parabéns a todos que trabalharam e trabalham pela Umbanda, acreditando e praticando os ensinamentos de Deus, expressados no universalismo da Umbanda.


· As declarações do Caboclo das Sete Encruzilhadas foram gravadas pela psicofonia de Zélio de Moraes em sessão comemorativa da Tenda Nossa Senhora da Piedade, realizada em 1971, no aniversário de 63 anos de oficialização da Umbanda.

· No 3o Congresso Brasileiro de Umbanda, realizado em julho de 1973, foi oficializado o dia 15 de novembro como Dia Nacional da Umbanda.

· O termo “Umbanda Branca” ou “Linha Branca de Umbanda” foi apresentado no 1o Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, realizado em outubro de 1941.

Os editores Marques Rebelo, Virginia Rodrigues e os Espíritos amigos Pedro Miguel e Emiliano de Souza Arantes – 26/10/2008.


A Umbanda foi destaque em algumas importantes revistas brasileiras como Realidade,[12] Manchete,[13] Visão [14] e Revista de História da Biblioteca Nacional.[15]
Na revista Manchete, número 50, de março de 1953, aparecia em destaque: Por que cresce a macumba no Brasil? Como registro histórico mostramos um pequeno trecho dessa reportagem de Carlos Galvão Krebs. Este jornalista abordava as causas do crescimento dos cultos fetichistas e em um determinado ponto diz:

O ritmo, o canto, a dança, as vestimentas coloridas, as grandes festas públicas com uma assistência vibrante, isso se combina para proporcionar o prazer e a tensão emotiva de que, em outras culturas, se encarregam o teatro e o cinema, os concertos e a ópera.
Uma causa subtil, mas muito ponderável, da disseminação do fetichismo, é a fusão crescente, o sincretismo tendente a uma aglutinação completa de todas as crenças existentes no Brasil. Já Arthur Ramos denunciou isso. Em Porto Alegre, no Abrigo Espírita São Francisco de Assis, culto umbandista chefiado até a morte pelo irmão maior Laudelino de Souza Gomes, encontramos misturados (1948) elementos bantos, jêjes, yorubanos, católicos, ameríndios, protestantes, espíritas e esotéricos. Cada elemento deste sincretismo é um ponto de contato entre o fetichismo e os crentes de culturas diferentes e de outras religiões. Desta forma aumentam fabulosamente as possibilidades de proselitismo: não é como pescar à linha, mas, sim – pescar com espinhel.[16]
Para finalizar diremos que, no fundo de tudo, está a maior de todas as causas. É a massa do sangue negro que corre nas veias de uns 33% de nossa população negra pura e mulata. É o mestiçamento psicológico da maioria branca, denunciado por Gilberto Freyre, maioria branca que em grande parte se criou com o preto, que mamou leite branco nos seios generosos das babás negras, que se iniciou no amor com a carne trigueira das mucamas jovens.

Apesar da importância da reportagem, o leitor pode perceber que o jornalista, assim como a maioria da população, confunde a Macumba com a Umbanda e demais cultos afro-brasileiros.
O número 557 da Revista Manchete, de 22 de dezembro de 1962, registrava um casamento realizado por Benjamim Figueiredo na Tenda Mirim. Transcrevo a seguir a matéria:

Indiferentes às profundas discussões teológicas estabelecidas no Concílio Ecumênico, a linha de Umbanda continua recebendo em suas hostes novos adeptos através de cerimônias que constituem verdadeiros espetáculos de sons e coreografia primitivos numa tentativa de harmonizar os chamados princípios da religião oriental com o conceito místico dos nossos índios. Para os umbandistas em geral só se conhece uma hierarquia: “A evolução de cada espírito nos diversos planos da Criação e a vibratória estabelecida pelo mérito de cada um”. Dentro desse sistema, Umbanda quer dizer conjunto de leis que rege a vida e a harmonia do universo. E também possui a sua trilogia divina: Tupã (a própria vida). Oxalá (que simboliza a Inteligência) e Iemanjá (o Amor). Os outros Orixás Maiores são Xangô-Kaô (a Ciência), Oxósse (a Lógica), Xangô-Agodô (a Justiça), Ogun (a Ação) e Yofá (a Filosofia).
- Tupã vai proteger vossas vidas e Iemanjá vos dará muitos filhos. Mas aí de vós se quebrardes as leis da Umbanda!
O casal Almino José de Almeida e Walpi de Oliveira ouviram esta recomendação dos lábios do Senhor Benjamim Figueiredo, presidente da Tenda Espírita Mirim. Mas naquele momento quem falava era o próprio Caboclo Mirim, que viera dirigir a cerimônia do casamento. Enquanto a “madrinha” Vovó Cambinda soprava fumaça de charuto no rosto da noiva, ele continuava a sua prédica numa mistura de português e guarani, entremeada de grunhidos. Era sábado, 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, que para os umbandistas se chama Mamãe Oxum.
- Caboclo pode falar com segurança que para haver paz na taba é preciso haver muita compreensão. A mulher, principalmente, precisa obedecer ao marido.[17] Somente nessa disciplina pode ser cultivada a seriedade, a honestidade e evitar-se infelicidade no lar. Quando chegarem os novos curumins, devem trazê-los aqui na taba para receberem as bênçãos de nossos santos...
A exemplo de outras seitas,[18] os umbandistas sabem que a sobrevivência de sua comunidade depende da união dos seus fiéis. Talvez por isso continuam se multiplicando de Manaus a Porto Alegre e somam atualmente quase um milhão. Não sendo reconhecidos pela Federação Espírita Brasileira (que inclusive não adota o casamento religioso), formam um grupo à parte, quase acéfalo. No Rio, a mais forte congregação é a Tenda Espírita Mirim, que se constitui de vinte e sete filiais espalhadas pelos quatro cantos da cidade, com aproximadamente dez mil sócios. Nas noites de sessão, as tendas ficam repletas.

O número 31, de outubro de 1968, da Revista Realidade trazia como chamada de capa: Uma fé misteriosa - Umbanda. Na página 156 aparecia em destaque: Baixou o Santo! Marcos de Castro escreveu na abertura da reportagem de nove páginas:

Quando o santo baixa, num terreiro, centenas de pessoas entram em transe. É uma sessão de Umbanda, hoje religião oficial de milhões de brasileiros negros e brancos, de todas as classes. Para a maioria, porém, continua sendo um mistério.

Algumas páginas foram reservadas para mostrar como ocorria uma gira de caridade na Tenda Mirim. Em um dos momentos da reportagem há o seguinte destaque: Chega o Caboclo Mirim:

A esta altura, muitos já começam a ficar “atuados”: respiram fundo e muito alto, dão gritos, batem o dedo indicador no polegar. Seu Benjamim recebe o espírito do Caboclo Mirim, que morreu, ou melhor, “desencarnou”, há mais de 1700 anos. Acende um charuto e, de costas para os médiuns, de frente par a imagem de Cristo (Oxalá), passa a mão sobre a testa e a cabeça, e ajoelha-se. Em voz alta invoca o pai supremo Oxalá.
Todos se levantam e acendem charutos, os barulhinhos de dedos aumentam, os médiuns trocam saudações. Um grupo estende-se no chão, é saudado por outro. As mulheres, algumas muito mocinhas, também acendem charutos. Os “pretos-velhos” baixaram nelas. Agora, todos se saúdam.
Benjamim grita:
- Okê, Oxóssi!
Hoje, porque estamos em outubro, é Oxóssi. Em novembro será Iofá. Em dezembro, Iemanjá. Nas sessões de janeiro, outra vez Oxóssi, que será homenageado também em março. Em fevereiro e abril é Ogum. Iofá em maio; Xangô em junho; Iemanjá em julho e agosto. Em setembro, novamente Xangô. A Tenda Mirim dedica um mês a cada divindade.

A reportagem cita que as sessões de caridade começam sempre às 8h30 da noite e terminam às 10. Ao final do relato sobre os trabalhos da Tenda Mirim encontramos:

Ao fim de tudo, os médiuns de terreiro vão descarregar em cima dos médiuns de banco, que depois descarregam sozinhos. As expressões faciais são incríveis, uns riem muito, de olhos fechados. Há uma esfregação de mãos por todo lado, sobretudo na cabeça. Depois vêm as contorções e os berros finais, e reiniciam-se os cânticos. A sessão está terminada, os cânticos duram uns dez minutos. Todos os médiuns vão voltando então às posições iniciais. Benjamim faz avisos rápidos. A mocinha recomeça as saudações:
- Saravá, Caboclo Mirim!
- Saravá, Morubixaba!
E, com sua boa voz, entoa o cântico final:
- Seu Mirim vai embora...
Com ela, cantam mais quatro outras moças, todas bonitas, e mantêm o cântico durante quase todo o tempo que durou a sessão. A mocinha das saudações, que puxa tudo, no final recebe a benção do Caboclo Mirim, Seu Benjamim.
A Ave Maria de Gounod, lá no fundo, está no fim.
Atrás da mesa, sobre o alto do estrado, o médium que iniciou a sessão faz as invocações a Tupã, Oxalá, Oxum, Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxóssi e Iofá, agora em termos de agradecimento, não mais de suplica.

Frei Boaventura Kloppenburg aparece na reportagem:


Um frei que compreende

Frei Boaventura Kloppenburg, franciscano de Petrópolis e perito conciliar reconhecido como um dos mais atuantes no Vaticano II, conhece muito os mais diversos tipos de terreiros do Brasil. Frequenta-os exaustivamente e estuda-os há mais de quinze anos. Em abril deste ano, ele divulgou um trabalho chamado Uma breve introdução à Umbanda no Brasil. Diz ali, que mais ou menos desde 1940 existe um processo de coordenação, organização e união de vários movimentos populares de origem predominantemente africana. Sob o nome de Umbanda, se reuniriam a macumba do Rio de Janeiro, o batuque do Rio Grande do Sul, o Candomblé da Bahia, o Xangô de Pernambuco, o Catimbó do Nordeste, o Nagô do Maranhão, a Pajelança da região amazônica.[19] E admite:
- Vale a pena acentuar que o movimento está penetrando cada vez mais nas populações de origem européia. Pode-se dizer, hoje, que a maioria das pessoas que frequentam os centros, do mesmo modo que uma boa parte daqueles que dirigem as cerimônias, são brancos; inclusive brancos de classes sociais privilegiadas.
Em outro artigo recente, Ensaio de Uma Nova Posição Pastoral Perante a Umbanda, Frei Boaventura mostra que tudo isso parece o resultado de uma violenta insatisfação com as formas religiosas oficiais rígidas, excessivamente controladas, complexas e intelectuais. Ele acha que essas características fechadas impedem a manifestação espontânea de um espírito religioso popular.
- Nem o Catolicismo oficial de Roma, nem o Protestantismo puro dos reformistas e nem o Espiritismo ortodoxo de Allan Kardec parecem permitir suficiente margem para as necessidades religiosas de nosso povo. Umbanda dá a impressão de ser um protesto popular contra todas as formas religiosas importadas e insuficientemente adaptadas.

Ainda na mesma reportagem da Revista Realidade, no tópico Domínios da Umbanda, encontramos referências aos registros dos terreiros:

Desde 1964, depois de um esforço da Confederação Nacional Espírita Umbandista e dos Cultos Afro-Brasileiros, o IBGE passou a registrar em seu Anuário Estatístico a Umbanda, oficialmente, como religião. No Anuário de 1968, que traz as estimativas referentes a 1965, constavam como umbandistas, no Brasil, 105850 pessoas, quase 70% das quais na cidade e no Estado do Rio de Janeiro. Isso não quer dizer grande coisa, uma vez que ainda há, em muitos umbandistas, acentuada tendência de declararam-se católicos.[20] Inquérito realizado há dez anos pelo IPEME (Instituto de Pesquisas e Estudos de Mercado), nas favelas da cidade do Rio, dava 83,5 % dos adultos como católicos. Desses, entretanto, mais de 20 % não esconderam que frequentavam práticas da macumba. Segundo os umbandistas mais otimistas, o Brasil talvez tenha, hoje, perto de 4 ou 5 milhões de praticantes.
Em matéria de terreiros, as estatísticas são precárias. Não há números oficiais. Há levantamentos feitos pelas próprias entidades umbandistas, em condições que não podem ser consideradas as melhores. No Rio, por exemplo, incluindo as cidades limítrofes (o chamado Grande Rio), os números ficam quase todos entre 25 e 30 mil, falando-se apenas em terreiros juridicamente legalizados. Muitos terreiros conseguem registrar-se como associações beneficientes para obter verbas da Assembléia Legislativa. E obtém. Na verdade, muitas delas, como a Tenda Mirim, possuem departamentos de assistência social razoavelmente montados, com serviço médico, dentário e outros. O terreiro Caminheiros da Verdade, no Engenho de Dentro, mantem até hospital.
Os cariocas elegem pelo menos um deputado estadual através da Umbanda: Attila Nunes, que na última eleição teve 7370 votos e garante que não gastou de seu bolso senão 64 cruzeiros novos. Attila Nunes afirma que não precisa fazer propaganda para se eleger, porque tem amigos certos dentro da Umbanda. Começou na política em 1960 e teve logo 9 mil votos para constituinte do Estado da Guanabara, batendo no seu partido, então PSP, até nomes mais populares.
Muitos outros, descobrindo através dele que a Umbanda era um ótimo terreno para conseguir votos, foram explorá-lo.

A reportagem se encerra com a seguinte citação:
Do ritual de Umbanda, o culto de Iemanjá, no ultimo dia do ano, entrou no calendário oficial da Secretaria de Turismo, no Rio. Isso, segundo os umbandistas, é uma das provas de força do culto. Para outros, não passa de uma curiosidade folclórica para turistas.
A Umbanda, no entanto, é realmente forte. Não para de crescer. Dia a dia aumenta o número de seus adeptos. Os católicos já não a hostilizam, sua importância é reconhecida, quase todos a respeitam, ela não é mais uma religião clandestina. Todas as noites que uma campainha toca pela terceira vez e a Ave Maria de Gounod começa a ser suavemente percebida, milhares de pessoas se concentram em tendas e terreiros espalhados por todo o País. Compenetradas ouvem:
- Prezados amigos, estamos reunidos mais uma vez e vamos iniciar a nossa sessão dentro da maior boa vontade, pedindo por nós e pelos nossos, na prática do bem e da caridade, que esse é sempre o nosso objetivo, seguindo o exemplo do mestre altíssimo.
E compenetradas respondem:
- Que assim seja.

As reportagens da Revista Manchete, de 1962 e da Revista Realidade mostram a importância da Tenda Mirim que, sem sombra de dúvidas, era a mais famosa e procurada no Rio de Janeiro durante os anos 1960. A Tenda Nossa Senhora da Piedade, apesar de ser o berço da Umbanda, tornou-se mais conhecida a partir da década de 1970 quando Ronaldo Linares iniciou um intenso trabalho de divulgação sobre Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Conforme as próprias palavras de Zélio, quando recebeu a primeira visita de Ronaldo: este é o homem que vai tornar conhecido o meu trabalho no Brasil e no mundo.
No número 43, de 02 de julho de 1969, da Revista Veja, em matéria sobre o fanatismo religioso, que trata de um crime praticado por um médium que se dizia milagreiro, temos uma entrevista de W.W. da Matta e Silva explicando o porquê dos maus exemplos de nossa religião:

W. W. da Matta e Silva, teórico umbandista, relaciona três motivos principais dos “fracassos e graves erros” de alguns médiuns: vaidade excessiva (o médium é muito bajulado), ambição pelo dinheiro (recebe muitas prendas) e predisposição sexual incontida (é muito querido). Envolvido por um ou pelos três, o médium ultrapassa os seus limites e “então começam os desatinos, as bobagens e as confusões”, diz Matta e Silva.

A Umbanda esteve presente na Revista Visão em dois momentos. O número 40, de 3 de outubro de 1993, trazia como matéria de capa A Umbanda Cruza Fronteiras. A chamada do texto apontava:

Enquanto enfrentam a campanha movida pelos católicos e pelas lideranças do movimento negro contra o sincretismo, os umbandistas mostram a força de expansão de seu culto, que já chega à Argentina, ao Uruguai, até a Itália. São transformações de um credo que nasceu mestiço.

A reportagem mostrava que no Uruguai existiam mais de três mil terreiros de Umbanda. Citava ainda que em outros paises, como Argentina, Bolívia e Chile também havia templos umbandistas. Um fato curioso era apontado: A União de Umbanda do Rio Grande do Sul tinha uma tenda filiada em Roma, a quatro quarteirões do Vaticano. Essa mesma entidade federativa havia criado um Departamento de Relações Exteriores.
Jamil Rachid, presidente da União de Tendas Espíritas de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo dizia: No Brasil existem 550 mil templos umbandistas. No Estado de São Paulo, 35 mil estavam registrados até 1980.
A matéria foi muito importante para retratar a expansão do Movimento Umbandista daquele momento histórico brasileiro onde ainda não havia uma proliferação tão intensa das igrejas evangélicas que acabaram arrebanhando muitos umbandistas insatisfeitos com a religião.
O número 46, de 15 de novembro de 1989, da mesma revista fazia referência aos 81 anos da Umbanda e as origens do culto com a matéria: Saravá, Umbanda! Para tanto foram entrevistados Edison Cardoso de Oliveira e Diamantino Fernandes Trindade do Templo Espiritual de Umbanda Ogum Beira-Mar, localizado em São Bernardo do Campo, São Paulo. A reportagem visitou o terreiro e fotografou o rito de atendimento público em 3 de novembro do mesmo ano. Sobre o templo foi escrito:

É uma sala quase humilde. Limpa. Pequena. Numa espécie de palco, fechado por uma cortina, fica o altar, com o Coração de Jesus ao centro, cercado por vários santos do catolicismo: São João Batista, São Roque, São Jerônimo, São Lázaro, Santana, Santa Bárbara, São Cosme e São Damião. E Iemanjá, é claro.

Sobre a expansão do Movimento Umbandista podemos ler:

Estima-se que os terreiros de Umbanda no Rio de Janeiro sejam cerca de 20 mil. A União de Umbanda do Rio Grande do Sul tem uma casa filiada em Roma (VISÃO, 3-10-83) [21] e exportou a religião para o Uruguai e a Argentina. E de tal forma a Umbanda se expandiu nesses paises que em 1978 a Primeira Convenção Umbandista do Uruguai reuniu aproximadamente 50 mil pessoas no Estádio do Peñarol, em Montevidéu. Diamantino garante também que há terreiros de Umbanda em Lisboa, pela grande influência de brasileiros que lá vivem; que há pelo menos uma tenda de Umbanda em Israel, fundada por um seu aluno; e que a Umbanda está disseminada também nos Estados Unidos, com várias tendas em Nova Iorque.

A partir do inicio dos anos 1990 houve um recrudescimento na expansão do Movimento Umbandista motivado pela ascensão das igrejas evangélicas.
A Revista de História da Biblioteca Nacional publicou, em dezembro de 2008, a matéria O Pai da Umbanda, de autoria de Jorge Cesar Pereira Nunes. No primeiro parágrafo podemos ler:

Considerada por muitos como a única religião verdadeiramente brasileira, por reunir elementos da cultura indígena, africana e européia, a Umbanda completou seu primeiro centenário em 2008. Apesar disso, o culto ainda é visto com maus olhos por alguns líderes protestantes. A discriminação sofrida pelos umbandistas não é de hoje e está na própria raiz da religião, como atesta a história de Zélio Fernandino de Moraes.

Vale a pena ler o texto na íntegra. Para isso acesse a página da internet:
<http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2111>
A revista é vendida nas bancas e todas as edições podem ser acessadas no site: <http://www.revistadehistoria.com.br >

Outras importantes revistas também apresentam artigos relativos à Umbanda como a Revista Isto É. [22] Carina Rabelo, de Berlim, apresenta na edição 2036, de 6/11/2008, a matéria Umbanda e Candomblé na Europa, onde mostra a expansão da religião naquele continente. Essa mesma matéria foi publicada em abril de 2009 na Revista Courrier International, em Portugal. Vejamos um trecho:

Em 1974, de carona na onda do esoterismo, surgiram os primeiros terreiros de Umbanda e Candomblé na Europa, ainda reduzidos às práticas de magia. A partir do sucesso internacional dos trabalhos do fotógrafo e escritor francês Pierre Verger, pilar da difusão do Candomblé pelo mundo, começaram os festivais multiculturais e de fomento ao intercâmbio de estudantes e pesquisadores entre Brasil e Europa. Assim, a dança e a musicalidade dos cultos afros se tornaram o ponto de partida para o interesse pela religião.

A matéria pode ser acessada na íntegra na página: <http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2036/umbanda-e-candomble-na-europapais-de-santo-profissionalizam-os-rituais-afros-e-115995-1.htm>

Na edição 481, de 05/11/2007, a Revista Época [23] publicou a matéria O pai-de-santo que reinventou a Umbanda, onde Mariana Sanches aborda o trabalho de Carlos Buby, do Templo Guaracy em Cotia – SP. Na chamada da matéria temos:

O alagoano Carlos Buby transformou os rituais em cerimônias diurnas, bem organizadas e voltadas para o público de classe média. Com isso, seus 11 templos já atraíram mais de mil fiéis no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

Leia o texto completo na página: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG78474-6014,00.html>

Na Revista Cult,[24] encontramos o texto 100 anos de Umbanda, de Gunter Axt, publicado na edição 126, de 23 de agosto de 2008. Em um dos trechos da matéria podemos ler:
Nestas casas de religião, os umbandistas se reúnem uma vez por semana, numa corrente mediúnica. Vestem branco, costumam estar descalços, repetem orações amparadas na Bíblia e entoam, em português, pontos inspirados na música popular e na mitologia dos Orixás. As orações de abertura e encerramento das sessões estão escritas em livros, que circulam com diminutas variações entre as várias casas. Sim, porque a Umbanda cultua as divindades espirituais, mas também se remete ao Deus cristão, princípio de todas as coisas.

Para ler o texto completo, acesse a página:


Mostramos a seguir um trecho de uma matéria publicada em um periódico de divulgação científica, A Revista Galileu,[25] em sua edição 195 de outubro de 2007, onde Claudio Julio Tognolli escreve sobre a devoção de uma umbandista:


A nova cara da Umbanda

Uma idéia, várias formas.
Além de prestar serviços, a Umbanda pode inspirar. Que o diga a recifense Joana Gatis, a estilista e artista plástica, companheira de foto com Mãe Alice. Além de tatuagens de Iemanjá e pombagira (nos braços direito e esquerdo, respectivamente), fez quadros das duas entidades. À sua devoção, consagrou uma coleção: colocou na passarela 13 looks baseados nos orixás. "Gosto da rebeldia da pombagira, da boemia do Zé Pelintra, me identifico com eles", diz. Ansiosa por recarregar suas baterias espirituais, no dia da foto até pediu o cartão de Mãe Alice.

A matéria pode ser acessada, integralmente, na página: <http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG79270-7942-195-7,00.html>

Encerramos este capítulo destacando a tradicional Revista Planeta [26] que em vários momentos da sua história publicou temas sobre a Umbanda. Já no seu primeiro número brasileiro, setembro de 1972, trazia a matéria Candomblé, Umbanda e Macumba no Brasil, na reportagem Cultos africanos no Brasil, de Edison Carneiro.[27] No tópico A conquista da Umbanda, o autor escreveu:

Como tipo de associação religiosa a Umbanda já está conquistando novas posições no país. Os cultos de organização recente, em cidades como Teresina, Fortaleza, Vitória, Curitiba e Goiânia, onde aparentemente não existiam antes, são quase sempre desse tipo. E, pelo menos no Rio de Janeiro, onde conta com três milhares de tendas e terreiros, cada vez mais frequentados por crentes e curiosos, a Umbanda se considera bastante forte para candidatar-se a uma religião institucionalizada nacional.
Um pequeno núcleo de confrarias religiosas que constitui uma réplica, em ponto pequeno, do candomblé da Bahia, vive precariamente em Porto Alegre, sob a designação de Batuque e outrora, alternativamente, Pará. Característica nacional desses cultos é a sua localização urbana ou suburbana, com uma ou outra exceção no quadro rural.

O texto de Edison Carneiro aponta para o momento da grande da expansão do Movimento Umbandista no Brasil.
No número 259, de março de 1994, a seção Fórum dos Leitores apresentava um esclarecimento do leitor Sebastião Anselmo, de Santa Rosa do Viterbo, quanto ao caráter afro-brasileiro da Umbanda:


Esclarecimento sobre a Umbanda

Sr. Editor:
Como assinante desta conceituado e deveras interessante revista, tomo a liberdade de tecer alguns comentários sobre um tema que durante praticamente todo o ano de 1993 foi debatido na seção “Fórum dos Leitores”: a Umbanda.
Desde a edição 245 (fevereiro/93), quando foi publicado o artigo “Um Mergulho no Mistério da Umbanda”, notamos que a matéria em pauta gerou discussões e controvérsias em vários setores umbandistas e também dos chamados cultos afro-brasileiros, pois na edição 252 (setembro/93) a seção “Fórum dos Leitores” publicou o protesto do sr. Jeronymo H. Vanzelloti[28] ao artigo citado, e na 254 (novembro/93), o sr. Paulo G. da Silva criticou o protesto publicado no numero 252.
Assim, é fácil concluir que o tema merece uma melhor abordagem por parte desta conceituada revista, pois muita gente (inclusive adeptos) acredita que a Umbanda é uma religião afro-brasileira, o que não é verdade e precisa ser esclarecido com urgência. Não se trata de discriminação ou preconceito aos cultos de nação africana, que respeitamos, mas, a bem da verdade, Umbanda e cultos afros nada tem em comum.
Muitos confundem Umbanda com o Candomblé, Omolocô, Catimbó, Batuque, Xangô de Caboclo etc., mas a verdadeira Umbanda nada tem a ver com eles, nem com o Catolicismo ou Kardecismo. Umbanda é uma religião eminentemente brasileira, com doutrina própria, cujo nascimento data de muito antes do advento do Caboclo das Sete Encruzilhadas e do grande médium Zélio de Moraes.
Aos que amam verdadeiramente a Umbanda e aos pesquisadores sinceros que querem conhecer sua verdadeira essência, indicamos a portentosa obra de W. W. da Matta e Silva, Umbanda de Todos Nós, publicada em 1956 pela Editora Freitas Bastos...






[1] De maneira disfarçada ou sob pretexto de alguma coisa (nota do autor).
[2] Liberdade (nota do autor).
[3] Hipócritas (nota do autor).
[4] Que tem duas caras, falsos, dissimulados (nota do autor).
[5] Induzir em erro com imposturas; embaçar; enganar; iludir (nota do autor).
[6] Publicada pela Associação Paulista de Umbanda.
[7] Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo. <http://www.souesp.com.br>
[8] Instituto Cultural de Apoio Pesquisa às Religiões (Rio de Janeiro).
[9] Diamantino Fernandes Trindade foi o relator desse evento (nota do autor).
[10] Distribuidora Nacional de Publicações - Empresa do Grupo Abril.
[11] A partir de julho de 2009 passou a ser publicada pela Editora Minuano, com o nome de Revista Espírita de Umbanda.
[12] Revista mensal, criada em 1966 e publicada pela Editora Abril, era considerada um marco na história do jornalismo brasileiro. Primou por suas reportagens que combinavam escolha temática arrojada com texto bem cuidado, literário. Circulou até novembro de 1968.
[13] Revista semanal criada por Adolpho Bloch, começou a circular em abril de 1952 e era a principal concorrente da Revista O Cruzeiro. Circulou até 26 de julho de 2000 quando ruiu o Grupo Manchete.
[14] Revista semanal editada e publicada por Henry Maksoud, foi durante muito tempo a principal concorrente da Revista Veja. Circulou de 1959 a 1991.
[15] A Revista de História da Biblioteca Nacional, editada por Luciano Figueiredo, e o seu site são publicações da Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional (SABIN), com apoio do Ministério da Cultura e patrocínio da Petrobras e outras grandes empresas, sob o amparo da Lei Rouanet.
[16] É um tipo de arte de pesca à linha constituído por uma linha principal, forte e comprida, de onde dependem outras linhas secundárias mais curtas e em grande número, a intervalos regulares, onde cada uma termina num anzol (nota do autor).
[17] Nota-se aqui o sistema patriarcal típico daquela época, quando o movimento feminista ainda era apenas um ensaio. A frase Women's Liberation (Liberação das Mulheres) foi usada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1964, e apareceu pela primeira vez impressa em 1966. O marco desse movimento é o ano de 1968 quando o mundo começou a desconstruir algumas ordens sociais (nota do autor).
[18] Seita é um grupo cismático nascido no interior de uma igreja organizada e em oposição a ela. Então o termo seita não se aplica à Umbanda, pois esta não se originou de outra religião, mesmo tendo recebido influências do Espiritismo, Catolicismo e cultos afro-brasileiros (nota do autor).

[19] Erroneamente ele considera a Umbanda como um caldeirão de cultos (nota do autor).
[20] Isto acontece ainda hoje (nota do autor).
[21] Referência à matéria citada anteriormente: A Umbanda cruza fronteiras, que mostra diversos sacerdotes umbandistas em algumas partes do mundo praticando a religião. Na reportagem é feita a seguinte citação: “Desde a década de 20 encontramos referências à Umbanda como a legitima religião brasileira”.
[22] Revista semanal publicada pela Editora Três, São Paulo.
[23] Revista semanal publicada pela Editora Globo, Rio de Janeiro.
[24] Revista mensal publicada pela Editora Bregantim, São Paulo.
[25] Revista mensal publicada pela Editora Globo, Rio de Janeiro.
[26] Versão brasileira da famosa revista Planète, fundada na França, em 1960, por Louis Pauwels e Jacques Bergier. Publicada no Brasil pela Editora Três, atingiu em julho de 2009 o número 432.
[27] Etnólogo baiano, autor do cultuado livro Os Candomblés da Bahia.
[28] Presidente, na época, do CONDU – Conselho Nacional Deliberativo da Umbanda (nota do autor).

Um comentário:

Felipe Stanque disse...

A Umbanda não está disponível no web site mais visitado do Brasil...

"Orkut não permite a opção pela Umbanda", em
http://felipestanque.blogspot.com/2009/07/orkut-nao-permite-opcao-pela-umbanda.html

Saudações,

Felipe