sexta-feira, 28 de agosto de 2009

MANUAL DO MÉDIUM DE UMBANDA


A Editora Suprema Cultura lançará em outubro de 2009 o livro Manual do Médium de Umbanda. Veja a seguir o sumário da obra:


SUMÁRIO

Prólogo
1. Umbanda: A Senhora das Mil Faces
2. Os Orixás
3. Lendas yorubá sobre os Orixás
3.1. Yemanjá
3.2. Ogum
3.3. Xangô
3.4. Oyá (Inhaçã)
3.5. Oxóssi
3.6. Oxum
3.7. Nanã Buruquê
3.8. Obaluaiê
3.9. Oxalá
3.10. Ibeji
4. Resistência e Candomblé
5. Aspectos da implantação da Umbanda no Brasil
6. Origens do ritual umbandista
7. Origens da palavra Umbanda
8. As Sete Linhas da Umbanda
9. As Entidades Espirituais na Umbanda
10. Exu e a Kimbanda
11. Vibratórias espirituais dos Orixás conforme os conceitos esotéricos da Umbanda
12. Pontos Cantados
13. A grafia sagrada da Umbanda
14. Aspectos e manutenção da mediunidade
15. Ritual para a abertura dos trabalhos
16. Procedimento do corpo mediúnico dentro do terreiro
17. Saudações aos Orixás e as Entidades Espirituais
18. Obrigações na Umbanda
19. Banhos ritualísticos, de descarga, de proteção e de atração
19.1. Banho básico de descarrego ou defesa
19.2. Banhos quebra-demanda
19.3. Amaci de Oxalá
19.4. Banho de Obaluaiê
19.5. Banho de proteção para pessoas que procuram emprego
19.6. Banho seco
19.7. Banho de sal grosso
19.8. Banho para atrair a sorte e a prosperidade
19.9. Banhos para as obrigações aos Orixás
19.10. Banhos específicos em função do signo zodiacal
20. Defumações
20.1. Defumação básica
20.2. Defumação polivalente
20.3. Defumação para harmonia e fartura
20.4. Principais ervas e resinas utilizadas na defumação
20.5. Prece para defumar a casa
20.6. Efeitos do Incenso (Olíbano)
21. Descarregos com pólvora
21.1. Roda de fogo
22. Limpeza espiritual de residências
22.1. Desagregação de cargas negativas na casa (1)
22.2. Desagregação de cargas negativas na casa (2)
22.3. Desagregação de cargas negativas na casa (3)
22.4. Corte de vibrações negativas da nossa casa
23. O uso ritualístico das velas
23.1. Velas utilizadas para o culto aos Orixás e as Entidades Espirituais
24. O uso dos charutos e cachimbos
25. O uso dos curiadores
26. As guias ou colares ritualísticos
27. Os ponteiros
28. O uso da pemba – Pó de pemba
29. A toalha ritualística
30. Orações
30.1. Prece de Cáritas
30.2. Oração ao Senhor
30.3. Oração de São Francisco de Assis
30.4. Oração ao Anjo da Guarda
30.5. Oração de São Jorge
30.6. Oração Estrela do Céu (para pedir misericórdia Divina)
30.7. Oração com arruda contra o quebranto e o mau olhado
30.8. Oração com azeite e arruda contra o mau olhado e quebranto
30.9. Oração Forte (1)
30.10. Oração Forte (2)
30.11. Oração da clarividência
30.12. Oração para entrar em qualquer lugar
30.13. Novena para Yemanjá e Senhor do Bonfim
30.14. Prece para fazer ao levantar
30.15. Oração dos sete Caboclos e das sete Caboclas
30.16. Oração para corte de demanda
30.17. Oração com Obi
30.18. Oração contra depressão
30.19. Oração para abrir os caminhos
30.20. Oração para fechar o corpo contra inimigos
31. As sete lágrimas de Pai Preto
32. Trabalhos para o dia-a-dia do médium
31.1. Para afastar maus fluídos
31.2. Para afastar uma pessoa indesejada de sua vida
31.3. Para minar as forças de um inimigo
31.4. Para proteção das crianças
31.5. Para desobsessão
31.6. Para segurar dinheiro
31.7. Para abrir caminhos
31.8. Pó de sumiço
32. Hino da Umbanda
33. Datas comemorativas da Umbanda
34. Juramento do umbandista
35. Guias amarrados!
36. A semana santa e o dia de finados
37. Briga de Orixás!
38. Alerta aos médiuns umbandistas!
Referências Bibliográficas e Sitiográficas
Sobre o autor

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

LEAL DE SOUZA: A HISTÓRIA CONTINUA



Diamantino Fernandes Trindade

Caro leitor!
Após a publicação, pela Editora do Conhecimento, do meu livro Antônio Eliezer Leal de Souza: o primeiro escritor da Umbanda, continuei as pesquisas sobre o querido poeta e jornalista. Durante um ano estudei e analisei diversos documentos, para elaborar o livro, e fui interagindo e fazendo parte da vida dele, passando a amá-lo como se fosse meu pai ou meu filho. Enquanto tiver fôlego, vou prosseguir no resgate de sua memória, que também é parte da memória da Umbanda e da literatura brasileira.
Destaco aqui uma de suas obras que pouco abordei no livro, A Romaria da Saudade, onde poeta faz um apanhado de sua viagem ao Rio Grande do Sul, dezoito anos após sua partida para o Rio de Janeiro, e as conferências por ele realizadas nesse Estado. No segundo capítulo, Recordações da vida literária, conferência proferida em Porto Alegre, na noite de 17 de janeiro de 1918, Leal de Souza falou sobre a vida militar. Transcrevo alguns trechos que considero importantes:

“Na Escola Militar, em 1898. Dezoito alunos, obtendo a necessária licença requerida ao ministro, fomos guerrear a Canudos” [1]

“Implicado na curta guerra dos ratos brancos[2] – sanguinoso conflito entre alunos e policias – fui, com sessenta companheiros, excluído da Escola, e, achando-me preso, travei prazeroso conhecimento com os poemas de Caldas Junior”.

“Em São Gabriel, servíamos Armando Faria Correia, Ernestino Catão Mazza e eu, quando, a propagar uma revista porto-alegrense, Marcello Gama por lá apareceu. Armando, ousado, publicava; Ernestino, discreto, murmurava, e eu, desconfiado, escondia versos. Os meus, clandestinamente perpretados,[3] jaziam debaixo da cama, dentro de uma lata coberta por uma tábua encimada por uma pedra. Certa ocasião, estando nós no quartel e Marcello em nossa casa, a sua impertinente bisbilhotice esgaravatadora devassou o enlatado tesouro poético e ao abrir, no domingo, uma folha local, eu, tremendo de espanto e vergonha, deparei com todo o meu nome espetaculosamente espichado sob o escândalo de quatorze dos meus ocultos versículos, impressos em perfilado tipo garrafal. Assim, empurrado e surpreendido, penetrei o Parnaso”.

Cansado de sofrer prisões por combater o governo de Borges de Medeiros,[4] desligou-se do quartel. Emocionado, fala da sua partida para o Rio de Janeiro:

“... Ano de 1900... Um navio amarado no Guaíba... Novembro... Macias, ficando... viridentes,[5] fugindo... ondulosas, desaparecendo... as doces terras sul rio-grandenses... desaparecendo... desaparecendo e na fulva[6] apoteose vesperal de Dezembro, diante da afável Guanabara acolhedora, o deslumbrado canto de um bárbaro:

Cidade dos nostálgicos crepúsculos,
Floresça o Amor e frutifique o Ideal,
Sob a fronde[7] oscilante das palmeiras!

Num sarau, fui apresentado, por Afonso de Aquino, a Olavo Bilac, e no momento, a então senhorita Ferreira Vianna, aludindo benevolamente as minhas rimas obscuras, acordou-lhe o desejo de conhecê-las. Recitei-as. A magnanimidade do mestre explodiu, surpreendendo a mim, e a todos. Por solicitação e intermédio de Guimarães Passos, mandei-lhe, destinada à sua coleção de autógrafos, uma das produções recitadas, e indescritível foi o meu espanto ao vê-la transcrita na Noticia, entre animadores gabos[8] vazados na harmônica prosa bilaqueana. Não é a vaidade, é a gratidão quem recorda essa fina carícia da luz gloriosa à quieta sombra afundada do vale”.

No capítulo Saudades do Rio Pardo, conferência proferida em Rio Pardo, na noite de 31 de janeiro de 1918, Leal de Souza mais uma vez fala sobre a vida militar:

“Por esse ano de 1889, cheguei à vossa cidade e, sob a farda de aluno da Escola Preparatória e de Tática, vivi entre vós acima da terra, dentro da nuvem azul e ouro do sonho puro...
Éramos, na Escola, uns trezentos rapazes ligados por laços recíprocos de afetos à população civil, orçada em treze mil habitantes. Com as nossas pardas blusas de canhões azulados, passeando ao declínio das tardes, vagando na treva das noites, cobríamos a extensão das ruas e praças, extravasando-nos, solitários ou em grupos, pelos pontos adjacentes. Moços e crentes, esperando realizar ambições esplendidamente ingênuas, tínhamos na face o esplendor da alegria.
O moroso estudo facultativo, a frequência regular às aulas, os estéreis exercícios irregulares, as engraçadas brincadeiras concebidas e executadas com endiabrado chiste irreverente, não bastavam á nossa extenuante energia irrequieta. Caiam, alguns, em prostradora neurastenia,[9] e buscavam, outros, aproveitando-os onde achávamos, motivos e meios vários de ação.
Por isso, intervindo como demônios em coisas alheias ao nosso oficio, nos atiramos na agressiva confusão da política a nossa tumultuosa inexperiência militante.
Na Escola, provocando a raivosa reação dos cadetes contrários à nossas idéias; nas praças, acendendo a cólera no peito dos cidadãos hostis aos nossos princípios, na própria casa do comandante, militares unidos a paisanos apregoávamos, rugindo discursos formidáveis, a excelsitude de nossos vermelhos credos. Eu, simples soldado sem direitos políticos, fui, em muitos atos solenes, o inflamado orador oficial do partido inimigo do meu comandante! Multiplicavam-se, agravados de dia para dia, os perigosos atritos causados pelo crescente furor da politicalha, e, bondosos, acatados professores da consciência estelar de Olavo Barreto Vianna ou da superior tolerância de Francisco Sergio de Oliveira, compreendendo as circunstâncias do meio e os vivos ímpetos do sangue jovem, apaziguavam com seus apelos, e os seus conselhos, a irritação incontida dos chefes e o zombeteiro desdém dos comandados.
Talvez todo esse louco frenesi partidário fosse um resultado imprevisto, e só hoje observado, da nossa explosiva efervescência literária.
Discutindo a nossa prolixa[10] oratória, comentando as nossas estiradas[11] crônicas, aplaudindo os nossos fogosos cantos, a culta gente rio-pardense animava, magnânima, as nossas doidas audácias, e nós, entusiasmados por tantos generosos estímulos, tamanho barulho levantamos que fomos ouvidos em centros mais populosos, incitando-os, com o nosso exemplo, ao ativo trabalho intelectual.
Entrou-se de falar então, nas folhas porto-alegrenses e nas de todo o Estado, no movimento literário do Rio Pardo, dando-se-lhe a importância de uma nova escola caracterizada por traços próprios. Dessa transitória agitação de letrados, restam somente três livros – os Primévos, os Jaspes e o Álbum de Alzira, além das infinitas poesias esparsas. Nestas como naqueles, persistem, documentadas em significativas semelhanças, as linhas comuns do nosso poetar: - ausência inocente de processos e dogmas artísticos, sacrílega incredulidade religiosa, e, titulando uma nobre aristocracia feminina, delirante febre amorosa”.
“Quando um homem sofre por certas mulheres, esse cruel sofrimento é uma rutila[12] glória. Foi meu primeiro livro o espelho da fascinação. A fascinadora ingênua era menina e moça... Arvorecia, e em seu florir mostrava:

“Entreaberto o botão, entrefechada a rosa,
Um pouco de menina, um pouco de mulher.”

Com o seu flexível garbo[13] ondulante dava a impressão de ser alta; longos, os seus fartos cabelos densos, por serem tão negros, pareciam brilhantes e molhados; na harmoniosa escuridão de seu claro olhar dilatado para o espanto do mundo, no impoluto[14] negror dos seus travessos olhos rasgados para as surpresas da vida, relembrava um sombrio incêndio de treva; ensanguentava-se no bipartido frueto candido de sua boca a sonoridade luminosa do sorriso; era tímida, sendo altiva; com seu lento andar cadenciado imprimia sereno ritmo à luz, ao ar, à sombra, às idéias, aos sentimentos e fulgurava suntuosamente aureolada por um halo virginal de pureza absoluta...
Eu lhe falava com arrojo e unção:

Curvado e triste, humildemente eu venho
Depor aos vossos pés, em reverente
Culto, de sacra comoção tremente,
Das ilusões e pálido desenho.

Mandava-lhe através das noites, ou no úmido frescor das madrugadas róseas, beijos – da carne rubra versos palpitantes, e versos – beijos da lira; contemplava-lhe o donairoso[15] vulto emoldurado pelo fulgor sidereo das manhãs no quadro sul de sua janela; proclamava-a entre todas as belas a mais bela; seguia-lhe os passos nas salas por onde a laureada aristocrata passeava:

A mística inocência da serrana
Ostentando nas formas de sultana
O salero[16] gentil de uma espanhola

Fascinados,

Os meus olhos em taças se transformam
Para beber os mórbidos falernos[17]
De teus olhos tristissimos e ternos.

Quando ela, gloriosa, passa – heróica de beleza – revestida de pompas verdejantes, refulge a natureza, e o mar, ao vê-la, beija-lhe os pés, em convulsões desfeito, de perolas e algas. À sua passagem, o poeta canta e o selvagem chora.
Surpreende-a a minha imaginação no mistério subtil[18] da alcova,[19] e a soberana Condessa, corada de pudor, os seus pomposos adornos.

Ao rutilar da lâmpada de prata,
As madeixas nigérrimas desata.

Esconde-se no cálice purpúreo de uma flor a leveza de uma borboleta e,

Depois... Silencio... Trevas no aposento.
E as estrelas no azul do firmamento,
Alvas, brilhando cristalinamente.

Isolado no repouso noturno das coisas, enquanto a formosa adormece

Na tepidez do leito rendilhado,
Eu procuro no espaço constelado
O santelmo[20] argentino[21] da Esperança.
Árduos deveres determinaram inevitável mudança de palco à minha contingente situação de secundário ator mais ou menos invisível no drama universal da existência. Forçado a deixar a terra encantada dos meus amores, o meu alarmado coração lateja nos éstos[22] de uma dor precondita, e pulsando entre frias nevoas comparáveis às neblinas da noite de seis meses, clama:

Eu parto. Irei passar a rude vida
Na solitária e plácida guarida
Que tem por teto o teto da amplidão;
Desprezarei essas cidades vastas,
Irei viver nas serranias castas
E tu habitarás meu coração.

Só na mágoa do ultimo verso reside a verdade... Continuando, o meu romântico desespero bradava:

O mar...

Ao baloiçar do litoral a areia,
Há de levar-me, em turbilhões de espuma,
As linhas de teu corpo, uma por uma,
E os aromas silvestres desta aldeia...
Anunciava, estremecendo

Com as notas dispersas da cantiga
Nas duras rochas que a floresta abriga
A voz do echo, ao fenecer, consome,
Assim se apagarão nessa memória,
De nosso amor a celebrada historia
E as simbólicas letras do meu nome.

Teimoso, brandindo o plectro,[23] jurava, ou prometia: - voltarei

A este floreo berço de poesia
Para cantar-te a formosura rara.

Voltei, como vedes, e, obediente aos compromissos da juventude, cumpro, perante vós, as promessas da mocidade!
Há cerca de dezoito anos, num fim de baile, nesta cidade, o meu peito jovem recitava:

Tenho uma chaga d’alma em cada poro,
Derramo o pranto, quando o riso imploro
E peço a vida desejando a morte.

Assim, glorificando uma rosa de carne petalada em gelo, dava-lhe um suspiroso adeus!

... até um dia, adeus!

Esse dia, que nunca chegará, chegou, e embora só eu a veja,

Ela passa por mim resplandecente
Como o riso de amor da inspiração,

mas, das minhas ilusões antigas, apenas, restam, por esferas dolorosas,

Uma série de rimas lacrimosas,
Um punhado de lágrimas rimadas!

Saudade! Saudade! Porque, sendo tão doce, és tão amarga!
Os intransigentes espíritos justos não repudiam o seu passado. Assim, o humílimo estreante aplaudido pela vossa bondade em 1899, pode, em 1917, escrever, no Bosque Sagrado, a


BALADA DE ALZIRA


Por minha fé, por meu ideal,
Em selva bruta e em saxeo monte,
Eu pelejara firme e leal.
Do lar senti saudade insonte,[24]
E, sem que os próprios feitos conte,
Voltei da guerra do sertão,
Trazendo sob a ereta fronte,
Ferido o forte coração.

Perto do berço do meu natal,
Da mesma terra no horizonte,
Eu vi surgir teu vulto real,
E derrubei a estreita ponte
Do antigo afeto, pois defronte
Da tua nobre perfeição,
Pulsou, do amor bebendo à fonte,
Ferido o forte coração.

Num cemitério de arraial,
Antes que o doce luar desponte,
- Quebrando o assalto de um rival,
Provei que ousado brutamonte
Que a minha altiva dama afronte,
Derrama o sangue de vilão,
Embora eu mostre, a quem m’o aponte,
Ferido o forte coração.

Oferenda:

Formosa, ainda hoje, em meu remonte,
Pensando em ti, sem ilusão,
Sinto, debaixo do perponte,[25]
Ferido o forte coração!

Eu a sagrei Condessa... “Se um povo, sagrando-a rainha, lhe desse um trono, premiara a excelsa beleza virtuosa, pois nunca, em face tão bela, resplandeceu virtude mais pura...”

Apresento a seguir, alguns memoráveis poemas do livro Bosque Sagrado:


A RENUNCIA

... a sombra do Esclarecido era uma irradiação que
se confundia com o luar e fulgia na sombra...


Rolando em fluida névoa, a fosforear, flutua
No monótono Céu, na planície uniforme,
Ao langue[26] odor da flora a láctea luz da Lua,
E entre os jardins, na paz da noite, o paço[27] dorme.

Ora incerto e apressado, ora seguro e lento
O andar, braços ao peito, olhos em fogo, e abstrato,
Só, na escura nudez do seu largo aposento,
Sonha e pensa, indo e vindo, o príncipe Sidatho.[28]

De sacrossanto rei é o sacro herdeiro; a sorte
A voz de seu capricho é diligente ancila;[29]
Ama, sabe-se amado; é moço, é belo, é forte,
E luzindo na treva o seu traje cintila.

Mas, de pronto estacando, em tom que silva, agudo,
“A doença alquebra a força e à juventude” brada,
“O tempo abate; a morte a todos vence, e a tudo;
A vida é transitória e nada somos, nada!”

Ilhas de farto luxo e opulento conforto
Onde amável aroma ondeia em fumea espira,
Orlados de frescor de amplos jardins, absorto,
Os esplendores reais dos seus palácios mira.

Segue para um salão de altos muros erguidos
De iriada[30] pedraria em rebrilhos acesa,
E entre ricos metais e custosos tecidos,
Com tranquilo desdém renuncia a riqueza .
Na augusta sala régia o seu passo ressoa.
Dos prestígios de casta ali desvenda o ariano,
E, ante o Cetro glorioso e a sublime Coroa,
Renuncia o direito ao poder soberano.

Da alcova conjugal transpondo a entrada, fita
– Esparsa a coma, arfante o seio, a fronte pura –
Yashodara [31] a dormir voluptuosa e bonita,
E do amor renuncia a perfeita ventura.

Recua e foge... A paz da noite encanta e assombra...
Do paço, que abandona, à porta as vestes muda...
Vai... Redonda, à feição de uma aureola, na sombra
Dos caminhos, ao luar, treme a sombra de Buda.



ESCRAVA

Bela grega em país de bárbaros, por dolo[32]
Dos Deuses reduzida à condição de serva
De zeloso senhor que a retinha e conserva,
Conheci, resignada às leis de estranho solo.

Seu olhar, ao pausado ondeio do seu colo,
Reflete a placidez interior de Minerva,
E é puro como o orvalho estrelando a verde erva
Ao rolante clarão da quadriga [33] de Apolo.

Amo-a. Ao rebelde Amor impondo a disciplina
Da arte, em pedra copio esse rosto, exaltado
Ante a forma que indica uma estirpe divina.

E à sombra, ao borbulhar das águas, festonado[34]
De hera,[35] mirto[36] e loureiro, o seu busto domina
O recanto pagão deste Bosque Sagrado.



A UM BUSTO DA REPUBLICA

(A BORDO DO CONTRATORPEDEIRO “RIO GRANDE DO NORTE”
DURANTE UMA PRISÃO POLITICA)

No teu olhar sem luz há sugestões de nave,
Tua fronte do sonho a aureola ideal conserva,
E o teu calmo perfil tranquilamente grave,
Tem a serenidade austera de Minerva.[37]

Frígio,[38] no teu cabelo, o gorro dos libertos
Ostentando, ao clamor das turbas que abençoas,
– Sob amplo azul dos céus em novos céus abertos,
Ofuscas o esplendor augusto das coroas.

A virtude escrevendo em gloriosas divisas,
De Temis[39] a balança o gládio[40] atas de Marte,[41]
E o terrível poder do povo simbolizas
Na cabeça de leão que tens no talabarte.[42]

O mal castigas sempre, e os bons jamais abates,
E para destronar injustiças e vícios,
Exiges, ao rumor e ao fogo dos combates,
Como as deusas de outrora, humanos sacrifícios.

Quando rompendo as leis, doida, a força desvaira,
E sob os teus pendões a guerra o sangue espalha,
– Com afagos de sol, o teu encanto paira
Sobre os que vão morrer nos campos e batalha...



NA PRISÃO

(NO QUARTEL DA HARMONIA, DURANTE UMA PRISÃO
POR MOTIVOS POLITICOS) [43]

É estreita e escura esta prisão,
Mas é amplo o espaço estreito,
Quando respira o peito,
E a voar na tua própria vastidão,
As asas brandes, alma,
E em nossa fronte, a calma
Deixa pousar teu lábio irreal, – meditação.

Por ter insciente[44] malfeitor
Os erros condenado,
Vejo-me encarcerado,
Mas não me turva o espírito o rancor;
Tendo a consciência justa,
Nada me assusta
E o meu pensar emana em veio azul de amor.

Num calabouço de quartel,
Meu ser estudo, e vivo,
Com um santo cativo,
Das ferozes paixões surdo ao tropel;
Neste lar da arrogância,
Evoco a tolerância,
E, vendo as coisas do alto, eu as vejo sem fel.

Passa, em monótono ir e vir,
O guarda, à minha porta,
E o sonho me transporta
Às regiões onde o mal não tem vizir;
Mudo o cárcere em templo,
E, extasiado de almos[45] céus as manhãs do porvir.

Leal de Souza encerra o livro com o poema Cavaleiro Andante:



CAVALEIRO ANDANTE

De cavaleiro andante a espada fina,
Manejo com bravura sem ardor;
É-me preciso, em calma, na oficina,
A lira reencordoar de trovador.

Paro num cimo verde de colina,
De árvores que plantei respiro o odor,
E uma vasta tristeza me domina,
Envolve-me um silencio esmagador.

O peito em sangue, os olhos não enxutos,
Fatigado, vencido o coração,
Atinjo o termo de ilusões e lutos.

E ao fim da minha longa iniciação,
Reconheço a amargura dos teus frutos,
Bosque Sagrado da meditação!

A obra A mulher na poesia brasileira é um conjunto de três conferências:

v O ideal feminino das poetas, realizada no salão nobre do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 4 de outubro de 1913.
v Poetisas brasileiras, realizada no salão nobre do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 20 de agosto de 1914.
v Musa contemporânea, realizada sob os auspícios da Sociedade Brasileira de Homens de Letras, no salão nobre do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 4 de setembro de 1915.
A primeira edição foi publicada em 1918 pela Livraria Editora Leite Ribeiro e Maurillo, situada na Rua Santo Antonio, 3, na cidade do Rio de Janeiro.
Quando escreveu este livro, o Espiritismo já fazia parte da vida de Leal de Souza. Na conferência Poetisas brasileira, fez uma importante citação à poetisa Auta de Souza. Antes, de transcrevermos as suas palavras sobre ela, vejamos um pouco da sua biografia.
Filha de Eloy Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina de Souza, nasceu em Macaíba (RN), em 12 de setembro de 1876. Antes dos 12 anos, ingressou no Colégio São Vicente de Paulo, no bairro da Estância, onde recebeu primorosa educação por parte das religiosas francesas. Aprendeu Literatura, Inglês, Música, Desenho e Francês. Aos 14 anos, ainda no Colégio São Vicente de Paulo, em 1890, manifestaram-se os primeiros sintomas da tuberculose, obrigando-a a abandonar os estudos.
Em 1900 publicou seu único livro de poemas sob o título de Horto, prefaciado por Olavo Bilac, que obteve significativa repercussão da crítica nacional. Antes de serem reunidos em O Horto, alguns de seus poemas foram publicados em jornais como A Gazetinha, de Recife, O Paiz, do Rio de Janeiro, e A República, A Tribuna, o Oito de Setembro, de Natal, e nas revistas Oásis e Revista do Rio Grande do Norte. Faleceu em 7 de fevereiro de 1901 em Natal. Foi através de Chico Xavier, que ela, pela primeira vez revelou sua identidade, transmitindo suas poesias enfeixadas em 1932, na primeira edição da obra Parnaso de Além Túmulo, lançado pela Federação Espírita Brasileira.
Leal de Souza escreveu:

“Educado na doçura monacal,[46] sob o estro[47] de ideais contrários aos modernos, o estro seráfico[48] de AUTA DE SOUZA desconhecia os eficazes requintes da técnica, mas traduziu com espontânea singeleza comovedora a esplendorosa santidade de uma cândida alma açucenalmente embebida nas volúpias cristãs da beatitude.
O sangue não tinge de dor as lágrimas vertidas no seu Horto. No isolamento desse jardim em que o sol amortece ungido pelo incenso evolado[49] das fulcras rosas místicas e o cetineo luar, atenuando as trevas, esboça fugidias ermidas sidereas, um som imaterial de harpas ilusórias, acariciando os sentidos, envolve-os em uma flutuante tristeza sem amargura.
O piedoso carinho da poetisa decanta a graça irrequieta das crianças e deplora a morte das aves, ajoelha a sua constante saudade no bendito solo fechado sobre o sono funéreo de seus pais; aviva, na lembrança dos que ficaram, a memória dos queridos entes que se foram; e pousando o olhar magoado e enfermo na saúde risonha e na alegria vivaz das amigas felizes, entoa versos...
Santamente, AUTA sob morrer como vivera e, ao pé do túmulo,[50] cerrando os olhos para a luz do mundo, abriu sobre ele, à feição de um palio, as asas de sua benção”:

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes, e despedaçadas
Eis o repouso enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós... Almas amadas
Que soluçais por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Ao longo do livro Antônio Eliezer Leal de Souza: o primeiro escritor da Umbanda, citei diversos escritores que escrevem sobre poeta e que relato a seguir:

• Jorge Rizzini
• Fernando Góes
• Klaus Becker
• Fernando Jorge
• Luis da Câmara Cascudo
• Chico Xavier
• Emilio de Menezes
• Humberto de Campos
• Oscar Quevedo
• Mário Matos
• Alcides Maya
• Brito Broca
• Roger Bastide
• João de Freitas
• Raimundo Menezes
• Marlene Medaglia Almeida
• Carlos Drummond de Andrade
• D. L. de Macedo
• W. W. da Matta e Silva
• Horácio Cartier
• Fernando Py
• Gustavo Barroso
• Antonio Dimas
• Maria de Lourdes Eleutério
• Carvalho Netto
• Afrânio Coutinho
• João Fontoura
• João Pinto da Silva
• Anísio Rocha

Outros escritores podem também ser citados, como Gonzaga Duque em um artigo no Diário do Comércio, em 1909, ao se referir aos poetas emergentes do Rio de Janeiro:

Leal de Souza, original e intransigente, trazendo sob o manto régio de prosador da lira doiro do Verso Puro...

Manuel Bandeira, na obra Itinerário de Pasárgada, ao comentar sobre a publicação do seu primeiro livro,[51] escreve:

Não fiz grande distribuição do folheto, senão entre parentes e amigos. E um dos motivos foi que, tendo mandado um exemplar a Bilac, não recebi nenhuma resposta. Como na ocasião tivesse conhecido em Petrópolis a Flexa Ribeiro e Leal de Souza, ofereci-lhes o volume. Foram eles muito amáveis comigo. O primeiro dedicou-me todo um rodapé na Notícia, onde colaborava semanalmente; e o segundo meia página da Careta.

Agrippino Grieco, no livro Viagem em Torno a Machado de Assis, ao comentar os pseudônimos utilizados por diversos autores, escreve: Da máscara de Voltaire utilizava-se na Careta o gaúcho Leal de Souza.
Lima Barreto, no livro Um longo sonho do futuro, em uma carta dirigida a Antonio Noronha dos Santos (15/05/1909), escreve:

O Paulo encontrou-me na rua e falou-me cheio de blandícias.[52] Que f.. da p.! Logo ao chegar, foi ao J. Barreto,[53] a modos de quem se desculpa. Sabes bem que não o tratei nem melhor nem pior. Aqui já se resmunga. O Elói,[54] essa sardinha literária, veio me falar, e por aí penso que a Garnier já tem noticias. O Paulo[55] veio sabendo do assunto mais [em] evidência no livro, e que não é o principal – o jornal, e isso apavorou-o um tanto, segundo me disse João. O Leal,[56] troçado aí por um jornaleco, engalfinhou-se com o diretor do mesmo, um tal Vasconcelos. Está de um ridículo sem nome, passeando com um enorme bengalão e atitudes de mata-mouros.[57]

O processo revolucionário brasileiro de 1930 teve alguns antecedentes. Julio Prestes foi eleito deputado estadual em 1909, federal em 1924 e presidente[58] do Estado de São Paulo em 1927.
Nesta época, estava em vigor no país a chamada política do café-com-leite, onde paulistas e mineiros se alternavam na Presidência da República. No governo de Washington Luis (1926-1930), porém, a alternância entre os Estados foi quebrada pelo presidente que, ao invés de indicar um mineiro, apoiou Julio Prestes de Albuquerque.
O PRM [59] aliou-se ao PRR [60] para fazer oposição ao governo de Washington Luis, criando a Aliança Liberal, que tinha como candidato Getúlio Vargas. O candidato do governo era Julio Prestes pelo PRP, [61] que foi eleito supostamente por fraude, já que a maior parte dos votos era da Aliança Liberal.
O assassinato de João Pessoa, que era vice de Getúlio Vargas, deflagrou o movimento denominado Revolução de 30, que por meio de um golpe militar gestado na Capital federal, depôs Washington Luís. Instalou-se no poder uma junta militar que, no dia 3 de novembro de 1930, entregou o poder a Getúlio Vargas, líder das forças revolucionárias. Nessa época Leal de Souza era secretário do jornal A Noite, de propriedade de Geraldo Rocha.
No livro Viriato Corrêa, G. Hercules Pinto relata a posição do biografado como parlamentar e jornalista frente ao processo revolucionário:

Washington Luiz representava a lei, o poder constituído e estava no dever de defendê-los. E procurou manter esse poder e defender a Constituição bravamente até o fim. Mas, sua resistência não durou três semanas. Parecia que em todo Brasil a revolução era o pensamento dominante.
O presidente reuniu o que dispunha para manter intactas as instituições. Mas, tudo já estava minado pela idéia de que qualquer coisa de novo deveria ser feito.
Acuado, o “braço forte” apelou para Viriato, que era deputado federal governista. Amigo do Presidente foi chamado a Palácio. E teve a incumbência de falar pelo Rádio no sentido de alertar o povo contra aquilo que, para o governo, era loucura, esclarecer, mostrar a todos que Washington estava senhor da situação e, portanto, era maluquice aquele movimento.
E todas as noites, Viriato, pela Rádio Sociedade, a única existente no Rio, graças à operosidade brilhante de Roquette Pinto,[62] profligava[63] o movimento rebelde, apoiado em centenas de telegramas que o Presidente lhe fornecera, vindos do pais inteiro, onde se dizia que a calma reinava em toda parte.

Porém a revolução ganhava corpo dia após dia. Quando a revolução eclodiu no Sul do país, Geraldo Rocha era assediado por muita gente que queria sua adesão ao movimento, considerado justo por uma considerável parte da população. No entanto, o proprietário do jornal A Noite, mantinha-se “no muro”, procurando uma neutralidade. Parecia esperar, de forma ardilosa, que as coisas acontecessem para aderir aos que tivessem mais chances de se tornarem vitoriosos. G. Hercules Pinto continua sua explanação:

Trabalhávamos no Suplemento Ilustrado de A Noite, revista fundada por Viriato e Armando Gonzaga e muitas coisas estranhas assistimos.
Um dos que vinham sempre saber o que Geraldo tencionava fazer com referência ao movimento que empolgava o Brasil era Belmiro Valverde, médico ilustre.

Belmiro insistia para Geraldo tomar uma posição e este parecia repetir as palavras do manifesto que o presidente Washington Luiz divulgou em 10 de outubro, onde dizia, logo de inicio:

“Tal movimento não se justifica. Não o inspiram ideais ou princípios. Que querem os seus promotores? Não o dizem, não o anunciam. Emudecem sob o peso do crime cometido. Quem são eles? Escondem-se no anonimato. Só se sabe que querem derramar o sangue brasileiro”...

A indecisão de Geraldo rocha intrigava a todos. Por que não se resolver logo a favor de Washington Luiz ou dos revolucionários? Eventualmente atacava um ato do presidente, porém sem entusiasmo, só para despistar. G. Hercules Pinto continua:

E todas as noites, Viriato estava na Rádio Sociedade com sua inteira boa-fé e sua lealdade corajosa. Viriato, munido dos telegramas que Washington lhe fornecia diariamente e, fiado nas informações que lhe dava o Ministro da Guerra, falava, falava. Quem diria a verdade? Viriato? Os revolucionários?
As coisas seguiam tumultuariamente quando, uma tarde, fui procurado pelo secretário do jornal, que nos disse se achar profundamente aborrecido.
- “O que é que há”? Perguntamos.
Essa era a frase que mais se ouvia. Era o grito que Oswaldo Aranha dera pelo rádio, como sinal da revolução que se iniciava.
E Eliezer Leal de Souza explicou que Geraldo não estava gostando do uso que Viriato fazia do nome de “A Noite” em suas pregações pelo rádio. Queria que ele o avisasse disso. Mas, não se via com coragem para tal missão por ser amigo do deputado e porque achava o aviso meio estranho. Afinal, ele era realmente redator do jornal e Geraldo proclamava-se amigo do Presidente. Por que não o dizer?
Espantamo-nos com essa atitude correta de Leal, porque sabíamos que fazia tudo que o chefe queria. Mas, continuamos calados à espera do desfecho da história. Terminou pedindo para que fossemos o portador do recado que ele recusava transmitir. Não aceitamos a incumbência por julgar aquilo uma covardia e porque, estando do lado de lá, como se dizia, esse aviso levado por nós, poderia parecer a Viriato uma impertinência ou uma intrujice de nossa parte. E o deputado continuou a atacar violentamente os chefes revolucionários.
E a revolução já era uma avalanche.
Dias depois novo aviso, agora mais peremptório.[64] Geraldo, que ninguém via, proibia seu velho amigo de usar o nome de “A Noite”. Novo convite de Leal para que fossemos o portador da ordem e nova recusa nossa.

Em pouco tempo o Presidente Washington Luiz foi deposto e preso. A Noite, que até o fim, não soube se devia atacar ou defender o Presidente, não descobrindo, portanto, o rumo certo a tomar devido à indecisão de Geraldo Rocha, foi queimada e depredada. Os jornais O Paiz, A Noticia e o Jornal do Brasil foram incendiados. A Noite fechou suas portas, porém o Exército e da Marinha, empenhados em consolidar a vitória da revolução, procuravam continuar na execução plena do esquema militar organizado. A propriedade particular ficou, a mercê de uma turba sedenta de saque e destruição. A massa ignara ensandecida incendiou e destruiu as oficinas do jornal. Aos depredadores associaram-se os salteadores profissionais que roubaram uma grande parte do material da redação e impressão. Continua a explanação de G. Hercules Pinto:

Como não era possível funcionar em meio dos escombros – onde, por um triz, íamos perdendo a vida presos no elevador privativo da redação – jornal foi instalado provisoriamente e às escondidas num sobrado do centro da cidade.
Esse diário que até 23 de outubro tinha como redator-chefe Eliezer Leal de Souza e gerente Ismael Maia, a 4 de novembro apresentava como diretor o poeta Augusto de Lima, membro da Academia Brasileira de Letras.
Na primeira página desse primeiro número post-revolução, o poeta se apresentou ao público dizendo de suas intenções, afirmando que as colunas do jornal estavam abertas a todos etc. Isso, no canto, ao alto. No restante da página, com o titulo “As atitudes da A NOITE” – Leal de Souza explicou, entre outras coisas, “O procedimento dos seus redatores em face do estado de sítio e da revolução” e a conduta política do dr. Geraldo Rocha.
Procurou explicar tudo, mas a coisa saiu muito canhestramente, como se o jornalista tivesse medo de ser apanhado em flagrante ao longo daquela história mal contada.
Quanto à Viriato, Leal, como que fazendo uma censura, como insinuando que A NOITE não estaria naquela situação desastrosa se não fosse a atitude do deputado, escreveu:

“O caso do Sr. Viriato Corrêa:

A NOITE sempre respeitou a opinião dos seus redatores, mas considerando que o Sr. Viriato Corrêa, deputado pelo Maranhão, assumia, nos seus discursos pelo Rádio, uma atitude que constratava violentamente com a orientação da folha, foi forçada a dispensar a sua colaboração, substituindo-o na seção MICROLANDIA pelo Sr. Armando Gonzaga.
Observando, porém, que o povo não notava a substituição, e não querendo magoar o Sr. Viriato Corrêa com uma declaração que as circunstâncias atuais justificam, suprimiu aquela seção.
Outro dos nossos redatores falou no Rádio em favor do governo, mas, antes de fazê-lo, deixou espontaneamente o posto que ocupava em nossa redação.”

Mais adiante, Geraldo Rocha convidou Viriato Corrêa para dirigir a revista Mundo Ilustrado, porém este recusou e nunca mais se viram. Em setembro de 1931, Leal de Souza deixou A Noite e transferiu-se para o jornal Diário de Notícias.
Paul Frischner na obra Presidente Vargas, descreve alguns momentos que antecederam o processo revolucionário e cita nas páginas 245 e 246:

Um pequeno grupo de homens acompanhara Getulio até a tribuna: eram os propagandistas de suas idéias. No dia 2 de janeiro de 1930, os cem mil homens e mulheres que aclamaram Getulio Vargas, transformaram-se em tantos outros propagandistas do programa da “Aliança Liberal”, em propugnadores de um Brasil grande e unido, que não fosse mais, conforme a expressão do historiador Leal de Souza, “a democracia do estado de sítio, a democracia das leis sem execução, dos códigos interpretados pela chicana, da formalística mentirosa, disfarçando o abuso sob aparências legais”.

Apresentamos algumas considerações de Walter Spalding na sua obra A Invasão Paraguaia do Brasil. Na parte final, onde cita diversos documentos importantes, sendo um deles um despacho do Ministro da Guerra dirigido a Ângelo Moniz da Silva Ferras, Barão de Porto Alegre:

Porto Alegre – Gabinete do Ministro da Guerra em 26 de julho de 1865.
Ilm. E Exm. Sr – Nas circunstâncias atuais, quando guardas nacionais solteiros e casados, empregados de diferentes categorias, indivíduos por diversos títulos isentos do serviço militar, correm pressurosos[65] de todos os ângulos do Império para vindicar, com as armas na mão, a dignidade nacional ...
Conheço a briosa população da Província do Rio Grande do Sul; sei, por experiência, que em dedicação e patriotismo a ninguém cede a dianteira. Quando não bastassem gloriosas condições para vigorar este juízo, ai estava mais uma brilhante prova no comportamento da população da campanha, que em massa abandona domicilio, família, cômodos e fortunas para acudir ao grito da Pátria (10). [66]

(10) Grande foi o número de voluntários que se apresentaram, e entre eles pessoas notáveis e de destaque na sociedade. Entre estes figura, e vale a pena evoca-lo aqui, - para o que damos a palavra ao insigne poeta e jornalista Leal de Souza, - o valente “cabo Vargas”, - hoje General Manuel Nascimento Vargas, pai do Excelentíssimo Presidente da República - :
“Era um mocito baixo, de peito largo, olhos calmos em rosto moreno. Chamava-se Manuel do Nascimento Vargas e nascera em Passo Fundo. Era criador, e ia alistar-se como voluntário, em frente ao inimigo, que inundava, com seus batalhões, as margens argentinas do Rio Uruguai, ameaçando São Borja, onde, nesse dia, 1o de fevereiro de 1865, apressava-se a organização do 28o Corpo de Cavalaria da Guarda Nacional. O moço de Cima da Serra foi incluído, com o n. 45, da Primeira Companhia, e à tarde recebia as divisas de cabo...

Depois de algum tempo trabalhando no jornal Diário de Notícias, Leal transferiu-se para o periódico A Nota, de propriedade de Geraldo Rocha. As suas ligações com o Presidente ficam patentes em Getúlio Vargas: Diário. No dia 9 de dezembro de 1938, Vargas escreveu:

Despacho com a Viação, regresso ao Guanabara, despacho do expediente.
Jantaram conosco o interventor de São Paulo e esposa. Após a retirada deste, recebi o jornalista Leal de Souza, que me procurava com muita ansiedade. Narrou-me seu rompimento com Geraldo Rocha e as causas deste rompimento, pela orientação dada por Geraldo ao A Nota, no sentido de uma ditadura militar.Que desde agosto Geraldo vinha trabalhando o ministro da Guerra nesse sentido, estando também comprometidos o coronel Costa Neto, comandante da 1a Região.
Depois de ouvi-lo chamei o chefe de Polícia. Este me chamou a atenção para os artigos de A Nota desse dia, de exaltação das forças armadas e do General Dutra, a propósito do segundo aniversário de sua administração como ministro da Guerra, que o censor tentara modificar alguns tópicos e não conseguira, porque Geraldo levava as provas ao general Benício e ao ministro da Guerra, e a censura tivera de ceder. Disse-me ainda que um dos maiores responsáveis por esse estado de coisas era o general Benício, recentemente nomeado para secretário-geral do Ministério da Guerra.



E a história continua...



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SITIOGRÁFICAS


AUTA DE SOUZA. Disponível em:
Acesso em 11/07/2009.
AUTA DE SOUZA. Disponível em: Acesso em 11/07/2009.
BANDEIRA, Manuel. Itinerário para Pasárgada. 5 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
BARRETO, Lima. Um longo sonho do futuro: diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas. Rio de Janeiro: Graphia, 1993.
DUQUE, Gonzaga. Até que um dia! In: HOUAISS, Antonio e NEGREIROS, Carmem Lucia. O triste fim de Policarpo Quaresma: edição crítica. Universidad da Costa Rica, 1997.
FRISCHAUER, Paul. Presidente Vargas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1943.
GRIECO, Agrippino. Viagem em Torno a Machado de Assis. São Paulo: Martins, 1969.
PEIXOTO, Celina Vargas do Amaral (apresentação). Getúlio Vargas: Diário, volume II (1937-1942). São Paulo: Siciliano/FGV, 1995.
PINTO, G. Hércules. Viriato Corrêa: A modo de biografia. Rio de Janeiro: Alba, 1966.
SOUZA, Leal. A Romaria da Saudade. Rio de Janeiro: Jornal do Commércio, 1919.
________. A mulher na poesia brasileira. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro & Maurillo, 1918.
________. Bosque Sagrado. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro & Maurillo, 1917.
SPALDING, Walter. A Invasão Paraguaia no Brasil. Coleção Brasiliana. Vol. 185. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.
TRINDADE, Diamantino Fernandes. Antônio Eliezer Leal de Souza: o primeiro escritor da Umbanda. Limeira: Editora do Conhecimento, 2009.
[1] Movimento liderado por Antonio Conselheiro no final do século passado (1893-1897) nos sertões baianos. A fama do movimento se deve a muitas razões, entre elas o fato de haver mobilizado grande contingente militar para sua repressão, transformando um conflito local e regional na maior guerra civil ocorrida no Brasil naquele final de século. A história de Canudos começou em 1893, quando foi fundado o Arraial de Canudos numa antiga fazenda de gado às margens do Rio Vaza-Barris, nos sertões da Bahia. Sob a liderança do beato Antonio Conselheiro, a população do Arraial chegou a atingir 8.000 sertanejos, integrados sob a forma de congregação religiosa.
[2] Em 1893 foi deflagrada uma guerra civil no Rio Grande do Sul. Os federalistas - adeptos do sistema parlamentarista - levantam-se contra Júlio de Castilhos, governador autoritário e centralizador, apoiado pelo Marechal Floriano. Como decorrência da guerra civil, foi fechada a então “Escola Militar de Porto Alegre”, ressurgindo, pouco depois, sob a forma de uma Escola Preparatória e Tática. Mas já em 1898, esse estabelecimento seria transferido para Rio Pardo. Talvez como conseqüência de atos de indisciplina em que se envolveram os alunos: a 06/06/1898, no desenvolvimento de um conflito com os “ratos brancos” da Polícia Municipal, os alunos atacaram o Posto Policial da Azenha (nota do autor).
[3] Praticar, cometer (qualquer ação condenável).

[4] Antônio Augusto Borges de Medeiros (Caçapava do Sul, 19 de novembro de 1863 — Porto Alegre, 25 de abril de 1961) foi um advogado e político brasileiro, tendo sido presidente do Estado do Rio Grande do Sul por 25 anos, durante o período conhecido como República Velha. Borges de Medeiros foi representante da primeira geração republicana.
[5] Florescentes (nota do autor).
[6] Ruiva, alourada (nota do autor).
[7] Ramagem de árvores, ramo (nota do autor).
[8] Louvores exagerados (nota do autor).
[9]Neurose com enfraquecimento da força nervosa, perturbações mentais do tipo tristeza e apatia (nota do autor).

[10] Excessivamente longa, palavrosa (nota do autor).
[11] Esticadas (nota do autor).
[12] Cintilante (nota do autor).
[13] Elegância (nota do autor).
[14] Imaculado (nota do autor).


[15] Gracioso (nota do autor).
[16] Requebro (nota do autor).
[17] Vinho bom (nota do autor).
[18] Penetrante (nota do autor).
[19] Pequena câmara interior para dormir (nota do autor).
[20] Fosforescência que em certas latitudes e principalmente em tempo de trovoada se nota no alto dos mastros dos navios (nota do autor).
[21]Prateado (nota do autor).
[22] Calor; ardor; efervescência, entusiasmo; fervor; ímpeto (nota do autor).
[23] Poesia (nota do autor).

[24] Inocente (nota do autor).

[25] Espécie de casaco curto que se veste sem colete (nota do autor).
[26] Sensual (nota do autor).
[27] Palácio (nota do autor).
[28] Sidarta Gautama (nota do autor).
[29] Serva (nota do autor).
[30] Colorida (nota do autor).
[31] Esposa de Sidarta (nota do autor).
[32] Fraude (nota do autor).
[33] Carro puxado por quatro cavalos (nota do autor).
[34] Ornado por grinaldas (nota do autor).
[35] Planta trepadeira (nota do autor).
[36] Planta arbustiva com muitos ramos, de folha persistente (nota do autor).
[37] Equivalente romana da deusa grega Atena, deusa da sabedoria, Minerva era filha de Júpiter (nota do autor).
[38] Barrete vermelho, adotado durante a Revolução Francesa como símbolo da Liberdade, e semelhante ao que usavam os Frígios. A Frígia foi um reino da antiguidade situado na parte central oeste da Anatólia (atual Turquia) (nota do autor).
[39] Deusa grega guardiã dos juramentos dos homens e da lei (nota do autor).
[40] Espada curta, de dois gumes, utilizada pelas legiões romanas (nota do autor).
[41] Deus romano da guerra (nota do autor).
[42] Cinturão de couro (nota do autor).
[43] Leal de Souza foi preso diversas vezes, quando servia o Exército, por combater o governo do Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros (nota do autor).
[44] Ignorante (nota do autor).
[45] Benéficos (nota do autor).

[46] Relativo a monge ou a monja (nota do autor).
[47] Inspiração poética (nota do autor).
[48] Místico (nota do autor).
[49] Exalado (nota do autor).
[50] Em 1951, foi feita uma lápide, tendo como epitáfio versos extraídos de seu poema Ao Pé do Túmulo (nota do autor).

[51] A Cinza das Horas.
[52] Carícias (nota do autor).
[53] João Pereira Barreto (nota do autor).
[54] Eloi Pontes (nota do autor).
[55] João do Rio (nota do autor).
[56] Leal de Souza (nota do autor).
[57] Valentão (nota do autor).
[58] Cargo equivalente ao atual de governador (nota do autor).
[59] Partido Republicano de Minas Gerais.
[60] Partido Republicano Riograndense.
[61] Partido Republicano Paulista.
[62] Em 1923, Roquete Pinto e Henrique Morize fundam a primeira emissora brasileira: Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (nota do autor).
[63] Procurava diminuir (nota do autor).

[64] Decisivo (nota do autor).

[65] Apressados, impacientes (nota do autor).
[66] Nesta nota de rodapé, Walter Spalding cita na íntegra o capítulo O Campeador do livro Getulio Vargas, de Leal de Souza.

ESCLARECIMENTO

A matéria AS REVISTAS DE UMBANDA E A UMBANDA NAS REVISTA faz parte do livro A CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA LITERATURA UMBANDISTA que será publicado em breve pela Editora do Conhcimento.

AS REVISTAS DE UMBANDA E A UMBANDA NAS REVISTAS

Diamantino Fernandes Trindade


Algumas revistas umbandistas podem ser encontradas na atualidade nas bancas de jornal. Muitas tentativas de manter esses periódicos ativos foram infrutíferas devido ao investimento financeiro sempre alto e com poucos patrocínios. Um exemplo é a importante revista Seleções de Umbanda, publicada por Omolubá juntamente com Israel Cysneiros, falecido em 1985, que circulou de 1975 até 1977. Outra revista que circulou por vários anos no Rio de Janeiro foi Kabala, dirigida por Domingos M. S. Ayroza e publicada pela Editora Revista do Capitão Atlas. No número 95, de julho de 1962, comemorativo do oitavo aniversário do periódico, aparece uma matéria escrita por João de Freitas na coluna Umbanda em flashes:

A dialética exige do orador conhecimentos gerais para que num diálogo ele argumente com precisão através do raciocínio claro e preciso.
Na Umbanda, o dialético precisa de conhecer história universal, de mitologia, de teologia, de doutrina, e, sobretudo, das leis,que regem o Universo. Sem tais requisitos ele se transforma em simples e intolerável demagogo, em palrador sem méritos, em veiculo de excitação das paixões coletivas.
Eis porque o demagogo é sempre visto como a um biltre que da lisonja e do louvor barato faz dos ingênuos e dos simplórios a escada de salvação para a sua ancestral mediocridade.
Atraídos pela cifra de milhões de adeptos, dessa religião que vaga sem norte por falta de um órgão de cúpula, pululam em todo território nacional inflamados oradores, sem lastro moral e intelectual que os credenciem, como candidatos a prefeitos, a deputados e a vereadores. Exploram a parvoíce de certos chefes de terreiro e a ingenuidade de algumas babás que não sabem distinguir a verdade da impostura, a decência da indignidade e a compostura da insensatez. É nesta hora que assistimos, com profunda tristeza, a inteligência, a cultura e o saber de muitos homens responsáveis pelos destinos da Umbanda em estarrecedora ausência.
É a dialética umbandista perdendo terreno para a demagogia solerte!
É nesta hora, repetimos, que se faz sentir a falta de um órgão de cúpula estadual para indicar seus candidatos, autênticos umbandistas, de inegáveis méritos. Somente assim a Umbanda ver-se-ia livre dos aventureiros de todos os matizes; dos pseudos lideres e dos chefes frustrados que agem de socapa[1] por lhes ter fugido das mãos a afortunosa ensancha[2] de empunhar o cetro de sonhado encanto; dos tartufos[3] e dos bifrontes[4] que se bandeiam para as hostes dos despeitados dificultando o trabalho hercúleo de uma minoria de abnegados de respeitáveis credenciais.
Todavia a comunidade umbandista, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos, através dos dirigentes esclarecidos das Tendas e Terreiros, não se deixará embair[5] pelas promessas dos demagogos.
Ela sabe, tanto quanto nós, por que tais espécimes são visceralmente contrários à criação de um órgão de cúpula.
De qualquer maneira, porém, a organização controladora virá por que a ordem emana das camadas superiores.

Apesar da criação de diversos órgãos de cúpula, pouca coisa mudou desde então. Os falsos lideres continuam pululando e tirando proveito da vaidade cada vez maior dos chefes de terreiro que buscam sempre migalhas de poder para inflar o seu ego.
O mesmo número do periódico noticiava o lançamento da obra Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda, de W. W. da Matta e Silva:

W. W. da Matta e Silva, nome internacionalmente conhecido, acaba de brindar as letras umbandistas com mais um de seus famosos livros – Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda – verdadeiro repositório de ensinamentos para neófitos, adeptos, estudiosos e praticantes da Umbanda.
O livro, desde sua feitura material, edição da Livraria Freitas Bastos, em ótimo papel, bem impresso, agrada em cheio, cativa o leitor, pela variedade extraordinária de assuntos ligados à Umbanda que, como revela o autor, está, como Deus, em toda parte de nosso planeta e tudo penetra e influencia, de tal sorte que tudo quanto até hoje foi dito e escrito é preâmbulo, ainda, de grande revelação.
No entanto, todo esse imenso cabedal de mistérios e práticas nada apresenta de inacessível ao vulgo, pois W.W. da Matta e Silva tem a magia de dissertação fácil e fluente, tornando corriqueiros os assuntos mais áridos. É um mestre do povo neste setor e procura elevá-lo com a mais sadia doutrinação moral e prática. Parabéns a W. W. da Matta e Silva e à Editora Freitas Bastos por mais este ótimo lançamento.

Quero registrar a minha homenagem ao irmão Demétrio Domingues, desencarnado em 2007, que por mais de dez anos publicou Umbanda em Revista,[6] com periodicidade mensal, onde divulgava os principais eventos umbandistas brasileiros, além de possibilitar que outros irmãos pudessem se manifestar por meio de suas matérias.
O número 117 apresenta uma reportagem relativa ao 6o Encontro de Chefes de Terreiro realizado pela Associação Paulista de Umbanda em 1985. Nesse evento Diamantino Fernandes Trindade representou a Federação Umbandista do Grande ABC e proferiu palestra sobre as origens da Umbanda no Brasil.
No site do SOUESP[7] encontramos o seguinte texto escrito por Ronaldo Linares em agosto de 2007, publicado no Jornal Icapra [8] de agosto de 2007:

Para tristeza de todos nós, faleceu no ultimo dia 24 de julho de 2007 o babalaô Demétrio Domingues, diretor-presidente da Associação Paulista de Umbanda. Homem de luta, de trabalho e de muita dedicação à causa umbandista.
Demétrio Domingues criou uma revista umbandista, na década de 80 onde em cada edição homenageava uma personalidade umbandista chamando-as de “Cacique da Umbanda”. Hoje, com o coração de luto despeço-me dele; do maior Cacique da Umbanda.
Demétrio Domingues foi meu companheiro de microfone por vários anos em meus programas: Umbanda em Marcha; Ronaldo fala de Umbanda; Momento de Prece.
Esteve comigo em meu programa da TV Bandeirantes (Programa Xênia Bier) e também na TV Gazeta.
E sempre tinha algo construtivo, positivo e com muito entusiasmo para estimular a família umbandista.
O grande cacique foi a alavanca mestra da Criação do Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo. Foi dele a idéia de juntar as Federações então existentes, em uma instituição idônea, que pudesse cuidar da Umbanda Paulista. Foi ele que convenceu o então coronel Nelson Braga Moreira a assumir o comando do SOUESP.
Foi por suas mãos que me aproximei do SOUESP e, posteriormente fui nomeado pelo já então, Coronel Nelson Braga Moreira, porta-voz oficial do Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo.
Foi o grande Cacique Demétrio o arquiteto do primeiro e segundo Congresso Paulista de Umbanda realizados na Câmara Municipal de São Paulo.
Foi ele também que organizou na Assembléia Legislativa “O Encontro sobre a Umbanda e a Constituinte” [9] e, mais do que isso, foi o único presidente da Federação até essa data, que enquanto a minha pesquisa sobre a origem da Umbanda se realizava, demonstrou interesse em auxiliar.
Posteriormente o Doutor Estevam Montebelo e o General Nelson Braga Moreira também procurarem ajudar e, quando conclui meu trabalho e apresentei-o à mesa diretora do SOUESP, as provas de que a primeira Tenda de Umbanda do Brasil fora a fundada por Zélio Fernandino de Moraes, estabelecendo definitivamente que o trabalho realizado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas fora o pioneiro da Umbanda. Foi de Demétrio Domingues, que recebi o primeiro abraço de congratulações pelo trabalho realizado.
Lembro ainda que a convite de Demétrio e do General Nelson Braga Moreira, recebi a incumbência de criar uma organização federativa no ABC paulista, foi assim que nasceu a Federação Umbandista do Grande ABC, organização que era um pouco “filha” de Demétrio, (que assinou sua ata de fundação), na mesma época e sob as mesmas indicações surgiram:
A própria Associação Paulista de Umbanda; A Federação Umbandista da Grande São Paulo; A Federação Regional Umbandista da Zona Oeste de São Paulo e a Federação Umbandista de Guarulhos.
De todos esses progressistas eventos, Demétrio participou diretamente e foi ele também, quem conseguiu colocar a primeira grande Imagem de Yemanjá no litoral Paulista, a estátua da Praia Grande.
Demétrio Domingues era, na intimidade, um grande companheiro. Quando provocado era grosso como um toco de açougueiro, mas da mesma forma que meu Pai no Candomblé, o saudoso Joãozinho da Goméia, tinha um coração de mel, dava e deu tudo de si pela família e pela causa umbandista; deu realmente tudo até mesmo a própria vida.
Hoje ele esta provavelmente propondo a Oxalá alguma forma de tornar mais fácil e mais alegre a vida do pobre povo brasileiro.

Umbanda em Revista circulou, com distribuição gratuita, durante 10 anos até 1985. Em abril desse ano, Demétrio Domingues uniu forças com o conceituado editor Bartolo Fittipaldi e a DINAP [10] para lançar a Revista Umbanda Verdade que era uma versão ampliada e melhor elaborada de Umbanda em Revista. Infelizmente teve vida curta.
Na atualidade, o principal periódico do gênero é a Revista Espiritual de Umbanda, [11] publicação bimestral, brilhantemente editada por Marques Rabelo e pela Jornalista Virginia Rodrigues. No site <http://www.girasdeumbanda.com.br> podemos ler:

UM EXEMPLO A SER SEGUIDO
Por Alexandre Falasco
O trabalho realizado por Marques Rebelo e sua equipe com a Revista Espiritual de Umbanda, é sem dúvida nenhuma, um exemplo a ser seguido por todos que fazem parte de nossa religião. Digo isso pela vontade de divulgar a Umbanda, com imparcialidade, com amor, e principalmente com a verdade. O religioso de Umbanda tem em minha opinião, obrigação de conhecer este trabalho, pois sem dúvida trará muitos conhecimentos sobre o que está acontecendo no universo umbandista, coisas que muitas vezes nem tomamos conhecimento por, até então, não existir um veículo de mídia assim e por nos confinarmos ao pequeno universo de nosso templo.
A única coisa que pode ser dita deste trabalho, um verdadeiro documento de nossa fé, é que a qualidade encontrou a disposição, a oportunidade encontrou o preparo.Parabéns Marques Rebelo, Virgínia G. Rodrigues e toda a equipe da Revista Espiritual de Umbanda, pelo trabalho desenvolvido em prol de nossa cultura.

Em novembro de 2008 a Revista Espiritual de Umbanda publicou primorosa edição especial comemorativa dos 100 anos da Umbanda. Transcrevo a seguir o editorial dessa edição:

EDITORIAL

Em cem anos de culto de Umbanda Branca, após 36.525 dias de anunciada, em 15 de novembro de 1908 sob a roupagem fluídico-energética de um caboclo brasileiro, perguntamos:
Quantos templos seguem o ritual da Umbanda Branca do Caboclo das Sete Encruzilhadas, que faz 100 anos no dia 15 de novembro de 2008?

Um momento de reflexão: Irmãos umbandistas, não somos seita nem partido político; não fazemos sacrifícios de animais nem vivemos de dízimos. Vivemos da caridade de nossos médiuns, e praticamos a caridade para viver o nosso real compromisso: nosso resgate espiritual firmado ao reencarnarmos, através do trabalho do amor ao próximo. Trabalhamos pelo crescimento da consciência evolutiva, expressa através das mensagens de nossas Entidades, sejam Caboclos ou Pretos-Velhos.
E foi no dia 15 de novembro, através do médium Zélio Fernandino de Moraes, que o Caboclo das Sete Encruzilhadas apresentou seu ritual de Umbanda, com o objetivo expresso na prática da caridade mediúnica, para o crescimento espiritual – “Umbanda, a manifestação do Espírito para a caridade”.
No dia 16 de novembro de 1908, na primeira sessão realizada na casa de Zélio de Moraes, o Caboclo anunciava que se iniciava, naquele momento, um novo culto em que Espíritos de velhos africanos, que haviam servido como escravos e que, desencarnados, não encontravam campo de ação nos remanescentes das seitas negras, dirigidas quase exclusivamente para trabalhos de feitiçaria, e os índios nativos da nossa terra, poderiam trabalhar em beneficio de seus irmãos encarnados, qualquer que fosse a cor, a raça, o credo e a condição social. A pratica da caridade, no sentido do amor fraterno, seria a característica principal desse culto, que teria por base o Evangelho de Jesus e como Mestre Supremo o Cristo – Oxalá.
Os participantes estariam vestidos de branco e o atendimento seria totalmente gratuito.
O Caboclo das Sete Encruzilhadas não admitia atabaques e nem mesmo palmas nas sessões. Apenas os cânticos, muito fortes e ritmados, para a incorporação dos Guias e manutenção da Corrente Vibratória. Capacetes, adornos, vestimentas de cores, rendas e lamês não seriam aceitos nos templos que seguissem a sua orientação. O uniforme era branco, de tecido simples, e as guias usadas deveriam ser apenas as que determinavam a Entidade manifestada. Todo esse ritual é até hoje seguido pela Tenda Nossa Senhora da Piedade, a primeira fundada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas.
O objetivo principal do novo culto que se apresentava estava no resgate por meio da caridade, praticada pelos Espíritos através de seus médiuns, e a caridade do médium para com o seu irmão consulente, objetivando o equilíbrio das forças vitais do corpo espiritual.
Irmãos umbandistas, conclamamos por reflexão! A prática da caridade não deve ser constituída de egoísmos, pois acreditamos no crescimento espiritual da humanidade pela evolução do Espírito.
Parabéns a todos que trabalharam e trabalham pela Umbanda, acreditando e praticando os ensinamentos de Deus, expressados no universalismo da Umbanda.


· As declarações do Caboclo das Sete Encruzilhadas foram gravadas pela psicofonia de Zélio de Moraes em sessão comemorativa da Tenda Nossa Senhora da Piedade, realizada em 1971, no aniversário de 63 anos de oficialização da Umbanda.

· No 3o Congresso Brasileiro de Umbanda, realizado em julho de 1973, foi oficializado o dia 15 de novembro como Dia Nacional da Umbanda.

· O termo “Umbanda Branca” ou “Linha Branca de Umbanda” foi apresentado no 1o Congresso Brasileiro do Espiritismo de Umbanda, realizado em outubro de 1941.

Os editores Marques Rebelo, Virginia Rodrigues e os Espíritos amigos Pedro Miguel e Emiliano de Souza Arantes – 26/10/2008.


A Umbanda foi destaque em algumas importantes revistas brasileiras como Realidade,[12] Manchete,[13] Visão [14] e Revista de História da Biblioteca Nacional.[15]
Na revista Manchete, número 50, de março de 1953, aparecia em destaque: Por que cresce a macumba no Brasil? Como registro histórico mostramos um pequeno trecho dessa reportagem de Carlos Galvão Krebs. Este jornalista abordava as causas do crescimento dos cultos fetichistas e em um determinado ponto diz:

O ritmo, o canto, a dança, as vestimentas coloridas, as grandes festas públicas com uma assistência vibrante, isso se combina para proporcionar o prazer e a tensão emotiva de que, em outras culturas, se encarregam o teatro e o cinema, os concertos e a ópera.
Uma causa subtil, mas muito ponderável, da disseminação do fetichismo, é a fusão crescente, o sincretismo tendente a uma aglutinação completa de todas as crenças existentes no Brasil. Já Arthur Ramos denunciou isso. Em Porto Alegre, no Abrigo Espírita São Francisco de Assis, culto umbandista chefiado até a morte pelo irmão maior Laudelino de Souza Gomes, encontramos misturados (1948) elementos bantos, jêjes, yorubanos, católicos, ameríndios, protestantes, espíritas e esotéricos. Cada elemento deste sincretismo é um ponto de contato entre o fetichismo e os crentes de culturas diferentes e de outras religiões. Desta forma aumentam fabulosamente as possibilidades de proselitismo: não é como pescar à linha, mas, sim – pescar com espinhel.[16]
Para finalizar diremos que, no fundo de tudo, está a maior de todas as causas. É a massa do sangue negro que corre nas veias de uns 33% de nossa população negra pura e mulata. É o mestiçamento psicológico da maioria branca, denunciado por Gilberto Freyre, maioria branca que em grande parte se criou com o preto, que mamou leite branco nos seios generosos das babás negras, que se iniciou no amor com a carne trigueira das mucamas jovens.

Apesar da importância da reportagem, o leitor pode perceber que o jornalista, assim como a maioria da população, confunde a Macumba com a Umbanda e demais cultos afro-brasileiros.
O número 557 da Revista Manchete, de 22 de dezembro de 1962, registrava um casamento realizado por Benjamim Figueiredo na Tenda Mirim. Transcrevo a seguir a matéria:

Indiferentes às profundas discussões teológicas estabelecidas no Concílio Ecumênico, a linha de Umbanda continua recebendo em suas hostes novos adeptos através de cerimônias que constituem verdadeiros espetáculos de sons e coreografia primitivos numa tentativa de harmonizar os chamados princípios da religião oriental com o conceito místico dos nossos índios. Para os umbandistas em geral só se conhece uma hierarquia: “A evolução de cada espírito nos diversos planos da Criação e a vibratória estabelecida pelo mérito de cada um”. Dentro desse sistema, Umbanda quer dizer conjunto de leis que rege a vida e a harmonia do universo. E também possui a sua trilogia divina: Tupã (a própria vida). Oxalá (que simboliza a Inteligência) e Iemanjá (o Amor). Os outros Orixás Maiores são Xangô-Kaô (a Ciência), Oxósse (a Lógica), Xangô-Agodô (a Justiça), Ogun (a Ação) e Yofá (a Filosofia).
- Tupã vai proteger vossas vidas e Iemanjá vos dará muitos filhos. Mas aí de vós se quebrardes as leis da Umbanda!
O casal Almino José de Almeida e Walpi de Oliveira ouviram esta recomendação dos lábios do Senhor Benjamim Figueiredo, presidente da Tenda Espírita Mirim. Mas naquele momento quem falava era o próprio Caboclo Mirim, que viera dirigir a cerimônia do casamento. Enquanto a “madrinha” Vovó Cambinda soprava fumaça de charuto no rosto da noiva, ele continuava a sua prédica numa mistura de português e guarani, entremeada de grunhidos. Era sábado, 8 de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, que para os umbandistas se chama Mamãe Oxum.
- Caboclo pode falar com segurança que para haver paz na taba é preciso haver muita compreensão. A mulher, principalmente, precisa obedecer ao marido.[17] Somente nessa disciplina pode ser cultivada a seriedade, a honestidade e evitar-se infelicidade no lar. Quando chegarem os novos curumins, devem trazê-los aqui na taba para receberem as bênçãos de nossos santos...
A exemplo de outras seitas,[18] os umbandistas sabem que a sobrevivência de sua comunidade depende da união dos seus fiéis. Talvez por isso continuam se multiplicando de Manaus a Porto Alegre e somam atualmente quase um milhão. Não sendo reconhecidos pela Federação Espírita Brasileira (que inclusive não adota o casamento religioso), formam um grupo à parte, quase acéfalo. No Rio, a mais forte congregação é a Tenda Espírita Mirim, que se constitui de vinte e sete filiais espalhadas pelos quatro cantos da cidade, com aproximadamente dez mil sócios. Nas noites de sessão, as tendas ficam repletas.

O número 31, de outubro de 1968, da Revista Realidade trazia como chamada de capa: Uma fé misteriosa - Umbanda. Na página 156 aparecia em destaque: Baixou o Santo! Marcos de Castro escreveu na abertura da reportagem de nove páginas:

Quando o santo baixa, num terreiro, centenas de pessoas entram em transe. É uma sessão de Umbanda, hoje religião oficial de milhões de brasileiros negros e brancos, de todas as classes. Para a maioria, porém, continua sendo um mistério.

Algumas páginas foram reservadas para mostrar como ocorria uma gira de caridade na Tenda Mirim. Em um dos momentos da reportagem há o seguinte destaque: Chega o Caboclo Mirim:

A esta altura, muitos já começam a ficar “atuados”: respiram fundo e muito alto, dão gritos, batem o dedo indicador no polegar. Seu Benjamim recebe o espírito do Caboclo Mirim, que morreu, ou melhor, “desencarnou”, há mais de 1700 anos. Acende um charuto e, de costas para os médiuns, de frente par a imagem de Cristo (Oxalá), passa a mão sobre a testa e a cabeça, e ajoelha-se. Em voz alta invoca o pai supremo Oxalá.
Todos se levantam e acendem charutos, os barulhinhos de dedos aumentam, os médiuns trocam saudações. Um grupo estende-se no chão, é saudado por outro. As mulheres, algumas muito mocinhas, também acendem charutos. Os “pretos-velhos” baixaram nelas. Agora, todos se saúdam.
Benjamim grita:
- Okê, Oxóssi!
Hoje, porque estamos em outubro, é Oxóssi. Em novembro será Iofá. Em dezembro, Iemanjá. Nas sessões de janeiro, outra vez Oxóssi, que será homenageado também em março. Em fevereiro e abril é Ogum. Iofá em maio; Xangô em junho; Iemanjá em julho e agosto. Em setembro, novamente Xangô. A Tenda Mirim dedica um mês a cada divindade.

A reportagem cita que as sessões de caridade começam sempre às 8h30 da noite e terminam às 10. Ao final do relato sobre os trabalhos da Tenda Mirim encontramos:

Ao fim de tudo, os médiuns de terreiro vão descarregar em cima dos médiuns de banco, que depois descarregam sozinhos. As expressões faciais são incríveis, uns riem muito, de olhos fechados. Há uma esfregação de mãos por todo lado, sobretudo na cabeça. Depois vêm as contorções e os berros finais, e reiniciam-se os cânticos. A sessão está terminada, os cânticos duram uns dez minutos. Todos os médiuns vão voltando então às posições iniciais. Benjamim faz avisos rápidos. A mocinha recomeça as saudações:
- Saravá, Caboclo Mirim!
- Saravá, Morubixaba!
E, com sua boa voz, entoa o cântico final:
- Seu Mirim vai embora...
Com ela, cantam mais quatro outras moças, todas bonitas, e mantêm o cântico durante quase todo o tempo que durou a sessão. A mocinha das saudações, que puxa tudo, no final recebe a benção do Caboclo Mirim, Seu Benjamim.
A Ave Maria de Gounod, lá no fundo, está no fim.
Atrás da mesa, sobre o alto do estrado, o médium que iniciou a sessão faz as invocações a Tupã, Oxalá, Oxum, Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxóssi e Iofá, agora em termos de agradecimento, não mais de suplica.

Frei Boaventura Kloppenburg aparece na reportagem:


Um frei que compreende

Frei Boaventura Kloppenburg, franciscano de Petrópolis e perito conciliar reconhecido como um dos mais atuantes no Vaticano II, conhece muito os mais diversos tipos de terreiros do Brasil. Frequenta-os exaustivamente e estuda-os há mais de quinze anos. Em abril deste ano, ele divulgou um trabalho chamado Uma breve introdução à Umbanda no Brasil. Diz ali, que mais ou menos desde 1940 existe um processo de coordenação, organização e união de vários movimentos populares de origem predominantemente africana. Sob o nome de Umbanda, se reuniriam a macumba do Rio de Janeiro, o batuque do Rio Grande do Sul, o Candomblé da Bahia, o Xangô de Pernambuco, o Catimbó do Nordeste, o Nagô do Maranhão, a Pajelança da região amazônica.[19] E admite:
- Vale a pena acentuar que o movimento está penetrando cada vez mais nas populações de origem européia. Pode-se dizer, hoje, que a maioria das pessoas que frequentam os centros, do mesmo modo que uma boa parte daqueles que dirigem as cerimônias, são brancos; inclusive brancos de classes sociais privilegiadas.
Em outro artigo recente, Ensaio de Uma Nova Posição Pastoral Perante a Umbanda, Frei Boaventura mostra que tudo isso parece o resultado de uma violenta insatisfação com as formas religiosas oficiais rígidas, excessivamente controladas, complexas e intelectuais. Ele acha que essas características fechadas impedem a manifestação espontânea de um espírito religioso popular.
- Nem o Catolicismo oficial de Roma, nem o Protestantismo puro dos reformistas e nem o Espiritismo ortodoxo de Allan Kardec parecem permitir suficiente margem para as necessidades religiosas de nosso povo. Umbanda dá a impressão de ser um protesto popular contra todas as formas religiosas importadas e insuficientemente adaptadas.

Ainda na mesma reportagem da Revista Realidade, no tópico Domínios da Umbanda, encontramos referências aos registros dos terreiros:

Desde 1964, depois de um esforço da Confederação Nacional Espírita Umbandista e dos Cultos Afro-Brasileiros, o IBGE passou a registrar em seu Anuário Estatístico a Umbanda, oficialmente, como religião. No Anuário de 1968, que traz as estimativas referentes a 1965, constavam como umbandistas, no Brasil, 105850 pessoas, quase 70% das quais na cidade e no Estado do Rio de Janeiro. Isso não quer dizer grande coisa, uma vez que ainda há, em muitos umbandistas, acentuada tendência de declararam-se católicos.[20] Inquérito realizado há dez anos pelo IPEME (Instituto de Pesquisas e Estudos de Mercado), nas favelas da cidade do Rio, dava 83,5 % dos adultos como católicos. Desses, entretanto, mais de 20 % não esconderam que frequentavam práticas da macumba. Segundo os umbandistas mais otimistas, o Brasil talvez tenha, hoje, perto de 4 ou 5 milhões de praticantes.
Em matéria de terreiros, as estatísticas são precárias. Não há números oficiais. Há levantamentos feitos pelas próprias entidades umbandistas, em condições que não podem ser consideradas as melhores. No Rio, por exemplo, incluindo as cidades limítrofes (o chamado Grande Rio), os números ficam quase todos entre 25 e 30 mil, falando-se apenas em terreiros juridicamente legalizados. Muitos terreiros conseguem registrar-se como associações beneficientes para obter verbas da Assembléia Legislativa. E obtém. Na verdade, muitas delas, como a Tenda Mirim, possuem departamentos de assistência social razoavelmente montados, com serviço médico, dentário e outros. O terreiro Caminheiros da Verdade, no Engenho de Dentro, mantem até hospital.
Os cariocas elegem pelo menos um deputado estadual através da Umbanda: Attila Nunes, que na última eleição teve 7370 votos e garante que não gastou de seu bolso senão 64 cruzeiros novos. Attila Nunes afirma que não precisa fazer propaganda para se eleger, porque tem amigos certos dentro da Umbanda. Começou na política em 1960 e teve logo 9 mil votos para constituinte do Estado da Guanabara, batendo no seu partido, então PSP, até nomes mais populares.
Muitos outros, descobrindo através dele que a Umbanda era um ótimo terreno para conseguir votos, foram explorá-lo.

A reportagem se encerra com a seguinte citação:
Do ritual de Umbanda, o culto de Iemanjá, no ultimo dia do ano, entrou no calendário oficial da Secretaria de Turismo, no Rio. Isso, segundo os umbandistas, é uma das provas de força do culto. Para outros, não passa de uma curiosidade folclórica para turistas.
A Umbanda, no entanto, é realmente forte. Não para de crescer. Dia a dia aumenta o número de seus adeptos. Os católicos já não a hostilizam, sua importância é reconhecida, quase todos a respeitam, ela não é mais uma religião clandestina. Todas as noites que uma campainha toca pela terceira vez e a Ave Maria de Gounod começa a ser suavemente percebida, milhares de pessoas se concentram em tendas e terreiros espalhados por todo o País. Compenetradas ouvem:
- Prezados amigos, estamos reunidos mais uma vez e vamos iniciar a nossa sessão dentro da maior boa vontade, pedindo por nós e pelos nossos, na prática do bem e da caridade, que esse é sempre o nosso objetivo, seguindo o exemplo do mestre altíssimo.
E compenetradas respondem:
- Que assim seja.

As reportagens da Revista Manchete, de 1962 e da Revista Realidade mostram a importância da Tenda Mirim que, sem sombra de dúvidas, era a mais famosa e procurada no Rio de Janeiro durante os anos 1960. A Tenda Nossa Senhora da Piedade, apesar de ser o berço da Umbanda, tornou-se mais conhecida a partir da década de 1970 quando Ronaldo Linares iniciou um intenso trabalho de divulgação sobre Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Conforme as próprias palavras de Zélio, quando recebeu a primeira visita de Ronaldo: este é o homem que vai tornar conhecido o meu trabalho no Brasil e no mundo.
No número 43, de 02 de julho de 1969, da Revista Veja, em matéria sobre o fanatismo religioso, que trata de um crime praticado por um médium que se dizia milagreiro, temos uma entrevista de W.W. da Matta e Silva explicando o porquê dos maus exemplos de nossa religião:

W. W. da Matta e Silva, teórico umbandista, relaciona três motivos principais dos “fracassos e graves erros” de alguns médiuns: vaidade excessiva (o médium é muito bajulado), ambição pelo dinheiro (recebe muitas prendas) e predisposição sexual incontida (é muito querido). Envolvido por um ou pelos três, o médium ultrapassa os seus limites e “então começam os desatinos, as bobagens e as confusões”, diz Matta e Silva.

A Umbanda esteve presente na Revista Visão em dois momentos. O número 40, de 3 de outubro de 1993, trazia como matéria de capa A Umbanda Cruza Fronteiras. A chamada do texto apontava:

Enquanto enfrentam a campanha movida pelos católicos e pelas lideranças do movimento negro contra o sincretismo, os umbandistas mostram a força de expansão de seu culto, que já chega à Argentina, ao Uruguai, até a Itália. São transformações de um credo que nasceu mestiço.

A reportagem mostrava que no Uruguai existiam mais de três mil terreiros de Umbanda. Citava ainda que em outros paises, como Argentina, Bolívia e Chile também havia templos umbandistas. Um fato curioso era apontado: A União de Umbanda do Rio Grande do Sul tinha uma tenda filiada em Roma, a quatro quarteirões do Vaticano. Essa mesma entidade federativa havia criado um Departamento de Relações Exteriores.
Jamil Rachid, presidente da União de Tendas Espíritas de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo dizia: No Brasil existem 550 mil templos umbandistas. No Estado de São Paulo, 35 mil estavam registrados até 1980.
A matéria foi muito importante para retratar a expansão do Movimento Umbandista daquele momento histórico brasileiro onde ainda não havia uma proliferação tão intensa das igrejas evangélicas que acabaram arrebanhando muitos umbandistas insatisfeitos com a religião.
O número 46, de 15 de novembro de 1989, da mesma revista fazia referência aos 81 anos da Umbanda e as origens do culto com a matéria: Saravá, Umbanda! Para tanto foram entrevistados Edison Cardoso de Oliveira e Diamantino Fernandes Trindade do Templo Espiritual de Umbanda Ogum Beira-Mar, localizado em São Bernardo do Campo, São Paulo. A reportagem visitou o terreiro e fotografou o rito de atendimento público em 3 de novembro do mesmo ano. Sobre o templo foi escrito:

É uma sala quase humilde. Limpa. Pequena. Numa espécie de palco, fechado por uma cortina, fica o altar, com o Coração de Jesus ao centro, cercado por vários santos do catolicismo: São João Batista, São Roque, São Jerônimo, São Lázaro, Santana, Santa Bárbara, São Cosme e São Damião. E Iemanjá, é claro.

Sobre a expansão do Movimento Umbandista podemos ler:

Estima-se que os terreiros de Umbanda no Rio de Janeiro sejam cerca de 20 mil. A União de Umbanda do Rio Grande do Sul tem uma casa filiada em Roma (VISÃO, 3-10-83) [21] e exportou a religião para o Uruguai e a Argentina. E de tal forma a Umbanda se expandiu nesses paises que em 1978 a Primeira Convenção Umbandista do Uruguai reuniu aproximadamente 50 mil pessoas no Estádio do Peñarol, em Montevidéu. Diamantino garante também que há terreiros de Umbanda em Lisboa, pela grande influência de brasileiros que lá vivem; que há pelo menos uma tenda de Umbanda em Israel, fundada por um seu aluno; e que a Umbanda está disseminada também nos Estados Unidos, com várias tendas em Nova Iorque.

A partir do inicio dos anos 1990 houve um recrudescimento na expansão do Movimento Umbandista motivado pela ascensão das igrejas evangélicas.
A Revista de História da Biblioteca Nacional publicou, em dezembro de 2008, a matéria O Pai da Umbanda, de autoria de Jorge Cesar Pereira Nunes. No primeiro parágrafo podemos ler:

Considerada por muitos como a única religião verdadeiramente brasileira, por reunir elementos da cultura indígena, africana e européia, a Umbanda completou seu primeiro centenário em 2008. Apesar disso, o culto ainda é visto com maus olhos por alguns líderes protestantes. A discriminação sofrida pelos umbandistas não é de hoje e está na própria raiz da religião, como atesta a história de Zélio Fernandino de Moraes.

Vale a pena ler o texto na íntegra. Para isso acesse a página da internet:
<http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2111>
A revista é vendida nas bancas e todas as edições podem ser acessadas no site: <http://www.revistadehistoria.com.br >

Outras importantes revistas também apresentam artigos relativos à Umbanda como a Revista Isto É. [22] Carina Rabelo, de Berlim, apresenta na edição 2036, de 6/11/2008, a matéria Umbanda e Candomblé na Europa, onde mostra a expansão da religião naquele continente. Essa mesma matéria foi publicada em abril de 2009 na Revista Courrier International, em Portugal. Vejamos um trecho:

Em 1974, de carona na onda do esoterismo, surgiram os primeiros terreiros de Umbanda e Candomblé na Europa, ainda reduzidos às práticas de magia. A partir do sucesso internacional dos trabalhos do fotógrafo e escritor francês Pierre Verger, pilar da difusão do Candomblé pelo mundo, começaram os festivais multiculturais e de fomento ao intercâmbio de estudantes e pesquisadores entre Brasil e Europa. Assim, a dança e a musicalidade dos cultos afros se tornaram o ponto de partida para o interesse pela religião.

A matéria pode ser acessada na íntegra na página: <http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2036/umbanda-e-candomble-na-europapais-de-santo-profissionalizam-os-rituais-afros-e-115995-1.htm>

Na edição 481, de 05/11/2007, a Revista Época [23] publicou a matéria O pai-de-santo que reinventou a Umbanda, onde Mariana Sanches aborda o trabalho de Carlos Buby, do Templo Guaracy em Cotia – SP. Na chamada da matéria temos:

O alagoano Carlos Buby transformou os rituais em cerimônias diurnas, bem organizadas e voltadas para o público de classe média. Com isso, seus 11 templos já atraíram mais de mil fiéis no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

Leia o texto completo na página: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG78474-6014,00.html>

Na Revista Cult,[24] encontramos o texto 100 anos de Umbanda, de Gunter Axt, publicado na edição 126, de 23 de agosto de 2008. Em um dos trechos da matéria podemos ler:
Nestas casas de religião, os umbandistas se reúnem uma vez por semana, numa corrente mediúnica. Vestem branco, costumam estar descalços, repetem orações amparadas na Bíblia e entoam, em português, pontos inspirados na música popular e na mitologia dos Orixás. As orações de abertura e encerramento das sessões estão escritas em livros, que circulam com diminutas variações entre as várias casas. Sim, porque a Umbanda cultua as divindades espirituais, mas também se remete ao Deus cristão, princípio de todas as coisas.

Para ler o texto completo, acesse a página:


Mostramos a seguir um trecho de uma matéria publicada em um periódico de divulgação científica, A Revista Galileu,[25] em sua edição 195 de outubro de 2007, onde Claudio Julio Tognolli escreve sobre a devoção de uma umbandista:


A nova cara da Umbanda

Uma idéia, várias formas.
Além de prestar serviços, a Umbanda pode inspirar. Que o diga a recifense Joana Gatis, a estilista e artista plástica, companheira de foto com Mãe Alice. Além de tatuagens de Iemanjá e pombagira (nos braços direito e esquerdo, respectivamente), fez quadros das duas entidades. À sua devoção, consagrou uma coleção: colocou na passarela 13 looks baseados nos orixás. "Gosto da rebeldia da pombagira, da boemia do Zé Pelintra, me identifico com eles", diz. Ansiosa por recarregar suas baterias espirituais, no dia da foto até pediu o cartão de Mãe Alice.

A matéria pode ser acessada, integralmente, na página: <http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG79270-7942-195-7,00.html>

Encerramos este capítulo destacando a tradicional Revista Planeta [26] que em vários momentos da sua história publicou temas sobre a Umbanda. Já no seu primeiro número brasileiro, setembro de 1972, trazia a matéria Candomblé, Umbanda e Macumba no Brasil, na reportagem Cultos africanos no Brasil, de Edison Carneiro.[27] No tópico A conquista da Umbanda, o autor escreveu:

Como tipo de associação religiosa a Umbanda já está conquistando novas posições no país. Os cultos de organização recente, em cidades como Teresina, Fortaleza, Vitória, Curitiba e Goiânia, onde aparentemente não existiam antes, são quase sempre desse tipo. E, pelo menos no Rio de Janeiro, onde conta com três milhares de tendas e terreiros, cada vez mais frequentados por crentes e curiosos, a Umbanda se considera bastante forte para candidatar-se a uma religião institucionalizada nacional.
Um pequeno núcleo de confrarias religiosas que constitui uma réplica, em ponto pequeno, do candomblé da Bahia, vive precariamente em Porto Alegre, sob a designação de Batuque e outrora, alternativamente, Pará. Característica nacional desses cultos é a sua localização urbana ou suburbana, com uma ou outra exceção no quadro rural.

O texto de Edison Carneiro aponta para o momento da grande da expansão do Movimento Umbandista no Brasil.
No número 259, de março de 1994, a seção Fórum dos Leitores apresentava um esclarecimento do leitor Sebastião Anselmo, de Santa Rosa do Viterbo, quanto ao caráter afro-brasileiro da Umbanda:


Esclarecimento sobre a Umbanda

Sr. Editor:
Como assinante desta conceituado e deveras interessante revista, tomo a liberdade de tecer alguns comentários sobre um tema que durante praticamente todo o ano de 1993 foi debatido na seção “Fórum dos Leitores”: a Umbanda.
Desde a edição 245 (fevereiro/93), quando foi publicado o artigo “Um Mergulho no Mistério da Umbanda”, notamos que a matéria em pauta gerou discussões e controvérsias em vários setores umbandistas e também dos chamados cultos afro-brasileiros, pois na edição 252 (setembro/93) a seção “Fórum dos Leitores” publicou o protesto do sr. Jeronymo H. Vanzelloti[28] ao artigo citado, e na 254 (novembro/93), o sr. Paulo G. da Silva criticou o protesto publicado no numero 252.
Assim, é fácil concluir que o tema merece uma melhor abordagem por parte desta conceituada revista, pois muita gente (inclusive adeptos) acredita que a Umbanda é uma religião afro-brasileira, o que não é verdade e precisa ser esclarecido com urgência. Não se trata de discriminação ou preconceito aos cultos de nação africana, que respeitamos, mas, a bem da verdade, Umbanda e cultos afros nada tem em comum.
Muitos confundem Umbanda com o Candomblé, Omolocô, Catimbó, Batuque, Xangô de Caboclo etc., mas a verdadeira Umbanda nada tem a ver com eles, nem com o Catolicismo ou Kardecismo. Umbanda é uma religião eminentemente brasileira, com doutrina própria, cujo nascimento data de muito antes do advento do Caboclo das Sete Encruzilhadas e do grande médium Zélio de Moraes.
Aos que amam verdadeiramente a Umbanda e aos pesquisadores sinceros que querem conhecer sua verdadeira essência, indicamos a portentosa obra de W. W. da Matta e Silva, Umbanda de Todos Nós, publicada em 1956 pela Editora Freitas Bastos...






[1] De maneira disfarçada ou sob pretexto de alguma coisa (nota do autor).
[2] Liberdade (nota do autor).
[3] Hipócritas (nota do autor).
[4] Que tem duas caras, falsos, dissimulados (nota do autor).
[5] Induzir em erro com imposturas; embaçar; enganar; iludir (nota do autor).
[6] Publicada pela Associação Paulista de Umbanda.
[7] Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo. <http://www.souesp.com.br>
[8] Instituto Cultural de Apoio Pesquisa às Religiões (Rio de Janeiro).
[9] Diamantino Fernandes Trindade foi o relator desse evento (nota do autor).
[10] Distribuidora Nacional de Publicações - Empresa do Grupo Abril.
[11] A partir de julho de 2009 passou a ser publicada pela Editora Minuano, com o nome de Revista Espírita de Umbanda.
[12] Revista mensal, criada em 1966 e publicada pela Editora Abril, era considerada um marco na história do jornalismo brasileiro. Primou por suas reportagens que combinavam escolha temática arrojada com texto bem cuidado, literário. Circulou até novembro de 1968.
[13] Revista semanal criada por Adolpho Bloch, começou a circular em abril de 1952 e era a principal concorrente da Revista O Cruzeiro. Circulou até 26 de julho de 2000 quando ruiu o Grupo Manchete.
[14] Revista semanal editada e publicada por Henry Maksoud, foi durante muito tempo a principal concorrente da Revista Veja. Circulou de 1959 a 1991.
[15] A Revista de História da Biblioteca Nacional, editada por Luciano Figueiredo, e o seu site são publicações da Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional (SABIN), com apoio do Ministério da Cultura e patrocínio da Petrobras e outras grandes empresas, sob o amparo da Lei Rouanet.
[16] É um tipo de arte de pesca à linha constituído por uma linha principal, forte e comprida, de onde dependem outras linhas secundárias mais curtas e em grande número, a intervalos regulares, onde cada uma termina num anzol (nota do autor).
[17] Nota-se aqui o sistema patriarcal típico daquela época, quando o movimento feminista ainda era apenas um ensaio. A frase Women's Liberation (Liberação das Mulheres) foi usada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1964, e apareceu pela primeira vez impressa em 1966. O marco desse movimento é o ano de 1968 quando o mundo começou a desconstruir algumas ordens sociais (nota do autor).
[18] Seita é um grupo cismático nascido no interior de uma igreja organizada e em oposição a ela. Então o termo seita não se aplica à Umbanda, pois esta não se originou de outra religião, mesmo tendo recebido influências do Espiritismo, Catolicismo e cultos afro-brasileiros (nota do autor).

[19] Erroneamente ele considera a Umbanda como um caldeirão de cultos (nota do autor).
[20] Isto acontece ainda hoje (nota do autor).
[21] Referência à matéria citada anteriormente: A Umbanda cruza fronteiras, que mostra diversos sacerdotes umbandistas em algumas partes do mundo praticando a religião. Na reportagem é feita a seguinte citação: “Desde a década de 20 encontramos referências à Umbanda como a legitima religião brasileira”.
[22] Revista semanal publicada pela Editora Três, São Paulo.
[23] Revista semanal publicada pela Editora Globo, Rio de Janeiro.
[24] Revista mensal publicada pela Editora Bregantim, São Paulo.
[25] Revista mensal publicada pela Editora Globo, Rio de Janeiro.
[26] Versão brasileira da famosa revista Planète, fundada na França, em 1960, por Louis Pauwels e Jacques Bergier. Publicada no Brasil pela Editora Três, atingiu em julho de 2009 o número 432.
[27] Etnólogo baiano, autor do cultuado livro Os Candomblés da Bahia.
[28] Presidente, na época, do CONDU – Conselho Nacional Deliberativo da Umbanda (nota do autor).