quinta-feira, 23 de julho de 2020

UMA LENDA? OU UMA HISTÓRIA DA ORIGEM DA UMBANDA?




Durante a luta da independência, na Bahia, criaram-se batalhões de milícias compostas de crioulos, sob a denominação “Legião dos Henriques”, em homenagem aos grandes feitos de armas contra os holandeses em Pernambuco, praticados pelo valente cabo de guerra Henrique Dias (Negro).
A essa legião foram incorporados alguns batalhões compostos de africanos, sendo o comandante de um deles o tenente-coronel João Batista Faria, africano falecido na cidade de Cachoeira, onde exercia o cargo de procurador do foro. Este oficial fez parte da Companhia de Veteranos que deu guarda de Honra a S. M. Dom Pedro II, por ocasião de visita a esta província em 1859.
Esse africano já trazia a seita religiosa de sua terra natal. Aqui era obrigado por lei a adotar a religião católica.
Habituado naquela e obrigado por esta ficou com a duas crenças.
Conta-se que esse coronel João Batista frequentava o candomblé da Ladeira de Santa Tereza de Domingos Africano.
Numa dessas reuniões o candomblé foi cercado pela polícia e ocorreu grande pancadaria e correrias, ocasionando a morte de um pobre velho africano. Esse ocorrido nunca saiu da mente de João Batista.
Pois bem, os anos se passaram e as perseguições nunca tinham tréguas.
Na época laureada de 28 de setembro de 1885, da qual foi sancionada a lei que dava plena liberdade aos escravos sexagenários ou seja, os negros que tivessem mais de 60 anos de idade.
Em virtude desse acontecimento, o coronel João Batista Faria, foi impulsionado por uma força intuitiva e tratou imediatamente de procurar entrar em contato com os escravos hora livres, que foram sacerdotes ou embandas em sua terra natal, pois havia muitos entre os demais, que foram arrancados a força de suas terras e outros que vieram espontaneamente para não deixar morrer aqui a crença de sua seita.
Os sacerdotes aqui existentes nessa época eram de diversas partes da África de acordo com seu povo. Bantus, Angolas, Nagôs, Jejes, e principalmente Yorubanos que eram mais instruídos e possuíam maior cultura.
Após reunir sacerdotes, conferenciou com os mesmos e organizaram a sociedade negra UNIÃO DAS BANDAS devido ser a união dos diversos povos africanos aqui vivendo e radicados.
A finalidade dessa organização era de amparar os escravos mais velhos, largados ao seu destino, professar os seus rituais de suas seitas, orientar e dar-lhes trabalho.
Essa sociedade era uma espécie de sindicato pacífico.
Mais tarde incorporam-se grupos de índios civilizados e ainda mestiços desempregados.
Numa das conferências que eram efetuadas na residência do coronel, concluíram que a sociedade deveria ter uma sede adequada para se fazer as reuniões e processar os seus rituais do culto de seus povos e onde se poderia convocar os seus associados.
Aconteceu, porém, que certa feita de um contrato de trabalho realizado pelo coronel, com um senhor de engenho muito seu amigo o qual empreitava uma grande área de terra plantada, para este distribuir aos negros associados para que nessa área trabalhassem plantando ou colhendo, cana, café etc., contou o coronel a este senhor, a fundação da sociedade e a questão da sede própria, e o que pretendiam, enfim o colocou a par de suas atividades.
Aconteceu, porém, que este senhor de engenho, muito caridoso que era, lembrou-se que em uma de suas fazendas, havia uma velha capela abandonada pelos jesuítas, e que pelo seu tamanho e forma poderia ser útil a sociedade. Assim sendo ofereceu gentilmente ao coronel e adiantou que poderia usá-la por tempo indeterminado e tudo que nela havia, isto é, bancos, mesas etc. advertiu também que a igrejinha era mal assombrada devido ouvir-se no seu interior toques de atabaques.
O coronel de posse dessa gentil e útil oferta, deu conhecimento aos seus amigos membros da sociedade, e convocou uma reunião em sua residência. Após a discussão das ordens do dia, explanou que não podia haver melhor lugar, e resolveram fazer uma visita ao local.
No dia seguinte pela manhã dirigiram-se para o dito local para verem o prédio. Lá chegando viram o prédio da antiga capela e se maravilharam com o acontecimento, e imediatamente puseram-se em ação, verificando o que seria necessário para os reparos.
Enquanto uns varriam, outros consertavam os bancos lá existentes e arrumavam portas e janelas; estando tudo arrumado lavaram o chão e esfregaram-no para melhor higiene.
Aconteceu, porém, que em dado momento, um dos negos que estava a limpar um dos cômodos, encontrou um velho baú coberto de poeira que mais parecia um bloco de pedra, chama a atenção de todos e conta o ocorrido ao coronel. Este o examina superficialmente e pensando tratar-se de uma peça pertencente ao senhor do engenho manda um dos membros da sociedade entregar o baú.
Mas aconteceu, que quando o negro apanhou o dito baú pela tampa, esta se abriu, e por espanto de todos olhando dentro viram muitos objetos embrulhados, que se tratava de estatuetas de santos católicos que pertenciam a capela.
Entre as estatuetas encontravam-se a de São Sebastião, São Jorge, Jesus Cristo, São Jerônimo, São João, São Benedito e outras pinturas também representando santos católicos, mais ao fundo uma Bíblia Sagrada e outros livros, faixas de missa e toalhas do altar e também um pouco de incenso, mirra, benjoim e algumas velas e mais o incensário.
Enquanto o coronel tirava os objetos do baú, os outros olhavam admirados, aconteceu porém que num momento inesperado em que o coronel retornava os objetos em seu lugar, ao pegar a estatueta de São Jorge seu padroeiro, esta lhe cai das mãos como por encanto, e o fenômeno, foi, por ser a estatueta de barro coto não se quebrou, e no mesmo instante o coronel lembrou-se do dia do candomblé da Rua Santa Tereza, onde havia tido a pancadaria, e ficou emocionado, chegando às lágrimas, contemplando a imagem de São Jorge, compreendendo a situação deu um forte suspiro e ficou alegre e radiante, o que causou admiração aos presentes.
Já era quase noite e prepararam-se para se retirar, o coronel leva consigo a Bíblia e os outros livros.
Após a meditação e leitura dos livros e da Bíblia, reuniu os membros da sociedade e conversaram a respeito da sede e de sua religião; explicou também o ocorrido no candomblé da Rua Santa Tereza, todos pediram palavra e também contaram acontecimentos que alguns presenciaram.
Em vista dos casos apresentados resolveram dar novo rumo às suas crenças e religião aqui no Brasil.
Estando a turma na capela limparam o velho altar, modificaram um pouco seu formato, prepararam-no e colocaram ali todas as estatuetas que haviam encontrado. Feito isso retiram-se para voltarem no dia seguinte, para continuarem a tarefa empreendida.
Ao raiar do outro dia, quando as nuvens brancas já eram visíveis, e já atingidas pelos raios solares, encontraram-se no pátio da capela os membros da diretoria da União, com mais alguns convidados chefes de terreiros de candomblés e outros.
Após uma palestra, entraram no recinto e tomaram assento e cada membro fez o seu sinal no chão com pemba.
Estando todos a postos levantaram-se e fizerem uma prece e, concluída esta, tomou da palavra o coronel e apresentou a questão. Meus caros irmãos de fé, neste momento em que estamos reunidos nesta singela casa, e tendo em vista a perseguição que vem sofrendo nossos candomblés, e que se reflete em nossa religião, por não conhecerem eles nossos santos e nossa religião prática. Sugiro que cada um de vós que conheceis nossos santos e sua história, analisem bem e meditem, para depois fazermos votação secreta para humildemente darmos aos nossos Orixás os nomes dos santos católicos, que pela igualdade de vida e sofrimentos, sejam firmados para a posteridade, aqui no Brasil, e que para os nossos sucessores não venham a sofrer por motivo de pensarem que adoramos outros deuses. Ouvindo isto todos murmuraram. Concentraram-se no assunto e cada um escrevia num pedaço de papel, o nome do santo católico em combinação com o Orixá, e colocavam-no dentro de um chapéu de palha.
Terminada a votação os negros do conselho, que era composto de negros Nagôs, Yorubá, Angola, Bantu, iam retirando do chapéu de palha os votos e entregando-os ao coronel e ao “Senhor de engenho” e estes iam anotando os resultados.
Terminada essa apuração, ficaram tomados de espanto em virtude de não haver nenhuma contradição de nomes de um para outro membro, pois entendia-se que todos estavam imbuídos de um só pensamento.
Os resultados foram os seguintes:

Zambi – Olorun, Tupã – Deus.
Oxalá – Jesus Cristo, filho de Deus.
Ogum – São Jorge.
Xangô – São Jerônimo.
Oxóssi das Matas – São Sebastião.
Ibeji – Cosme e Damião.
Omulu – São Lázaro.
Iansã – Santa Bárbara.
Yemanjá – Nossa Senhora da Conceição.
Oxum – Nossa Senhora da Aparecida.
São João Batista – Oriente.

E mais os arcanjos que não sofreram alterações e outros que não acharam qualitativo.
Lido o último nome os negros que estavam como que encantados gritaram viva e bateram palmas. Pedindo a palavra o coronel, o barulho cessou como se ficassem mudos ao mesmo tempo.
Prosseguindo disse – Meus caros irmãos agora vamos meditar e pensar bem, pois temos que reorganizar nossos rituais de cerimônias e os deixamos registrados nesta ata e que só poderá ser lida por iniciados em nossa seita e nossa União; dito isto todos disseram o apoiado e levantando-se, retiram-se cumprimentando o coronel e o senhor de engenho.
Enquanto os dias iam passando o coronel deu a cada novo santo uma posição para que quando na sede da União, as cerimônias em que baixavam entidades que se diziam se um Orixá, este seria anotado para pertencer a ordem do Orixá em questão, ou seja:

1a ) Ordem de Oxalá.
2a ) Ordem de Yemanjá.
3a ) Ordem de Ogum.
4a ) Ordem de Oxóssi.
5a ) Ordem de Xangô.
6a ) Ordem de Oriente (São João Batista).
7a ) Ordem Africana (ou de São Benedito).

Finda a semana, foi convocada nova reunião para apurarem os rituais.

O tempo passou  União das Bandas desenvolveu-se de tal maneira, e com o advento de outras leis abolicionistas, em outros estados havia muitos negros desamparados e criaram-se a filiais com as mesmas finalidades, e ficou com a alcunha de Uma Banda da União.
Aconteceu, porém, que quando algum necessitado precisava de auxílio, dirigia-se conforme seu lugar a Uma Banda da União e lá na maioria dos casos obtinha o conselho ou auxílio.
Quando uma pessoa precisava de auxílio alguém dizia procure Uma Banda, e lá tu conseguirás o que queres. Em função dos diversos dialetos as palavras foram corrompidas e a frase UMA BANDA acabou sendo traduzida como UM-BANDA.
Aconteceu que a palavra Umbanda (corruptela de Uma-Banda) tornou-se conhecida como centro de convergência da religião negra e mais tarde com a influência dos brancos nas suas diretorias ficou mais conhecido como terreiro espiritual de Umbanda, com práticas de culto espiritual prático, e nela recorrendo pessoas de todas as camadas sociais; como acontece hoje em nosso dias.
Pois bem caros leitores espero com esta pequena história ou “lenda” (este julgamento fica a critério dos caros amigos leitores) pois toda religião tem um princípio e um idealista como acontece com o Budismo, Cristianismo, Bramanismo etc.
Esta história que escrevi me foi dada por intuição e algumas palavras por mim ajeitadas, aceitando portanto a crítica que se fizer quanto a minha interpretação e escrita, e deixo para os entendidos o julgamento desta matéria.

AFRO
OSWALDO DE OLIVEIRA
(Rosa Branca)               
     

terça-feira, 23 de junho de 2020

LANÇAMENTO


HISTÓRIA DA UMBANDA NO BRASIL - VOLUME 10


Sinopse: A EDITORA DO CONHECIMENTO traz aos leitores o décimo volume da coletânea que resgata a História da Umbanda. Diamantino Fernandes Trindade apresenta matérias jornalísticas de periódicos já extintos, artigos, entrevistas e imagens ainda desconhecidos dos adeptos e simpatizantes dessa religião. Esta nova obra é um convite ao mergulho num mundo histórico da Umbanda, penetrando nos meandros do cotidiano dos terreiros e organizações federativas umbandistas desde as primeiras décadas do século XX até os dias de hoje, no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul e outros estados da União. São mostrados aqui aspectos externos dos diversos ritos que compõem o universo dessa religião praticada por milhares de templos e adeptos. É possível entender como as perseguições policiais afetaram e fortaleceram a Umbanda ao longo de mais de um século e, ao mesmo tempo, valorizar a liberdade de culto atual, mesmo com a intolerância religiosa que ainda vigora hoje. Há diversas maneiras de escrever a História da Umbanda. Uma delas ocorre com os recursos da pesquisa primária por meio de documentos e imagens, como nesta obra que mostra a faceta jornalística com a reprodução na íntegra das matérias do cotidiano dos periódicos nacionais. Para quem se interessa pela Umbanda, aqui está uma obra de inestimável valor que permite conhecer algo que só é possível com anos de leitura e pesquisa.

domingo, 17 de maio de 2020

LANÇAMENTOS

A EDITORA DO CONHECIMENTO lançou dois novos livros de Diamantino Fernandes Trindade.


http://edconhecimento.com.br



domingo, 17 de novembro de 2019

LIVRO HISTÓRICO HOMENAGEANDO PAI JAMIL RACHID E PAI DEMÉTRIO DOMINGUES

Em breve teremos um evento para o lançamento oficial desta obra sobre estes dois baluartes e decanos da Umbanda.



MOMENTO MÁGICO

Eu (Diamantino Fernandes Trindade) com meu querido Pai Ronaldo, decano da Umbanda, na Décima Semana da Umbanda na Cidade de São Paulo.

Benção meu pai!


terça-feira, 8 de outubro de 2019

O MAIS AGUARDADO!

Esgotado há sete anos, retorna com todo vigor, revisto e ampliado, o livro mais aguardado pelos umbandistas.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

CONVERGÊNCIA RELIGIOSA - A SAGRADA DIVERSIDADE RELIGIOSA BRASILEIRA

ANOS-LUZ

No uníssono canto
O universo responde
Faz a natureza brilhar
E sempre corresponde
A profundidade do Astral
Ilumina o caminhante
Que em uma só voz
Transcende num instante
A espiritualidade nos une
Formando uma mandala
União da parte com o todo
Luz. Entrega. Reencontro.

Tâmara Rodrigues (Discípula de Diamantino Trindade)

Mandala: Arte de Christiann Coppini (Discípulo de Diamantino Trindade)