terça-feira, 15 de setembro de 2009

ASPECTOS HISTÓRICOS SOBRE O HINO DA UMBANDA

Diamantino Fernandes Trindade


No meu livro Umbanda Brasileira: um século de história, publicado em 2008 pela Ícone Editora, fiz algumas considerações sobre a história do Hino da Umbanda a partir de algumas evidências colhidas na internet. Consultando o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira obtive alguns detalhes sobre o autor, José Manuel Alves:

José Manuel Alves: Compositor. Instrumentista. Dos 12 aos 22 anos tocou clarineta na Banda Tangilense, [1] em sua cidade natal. Em 1929, veio para o Brasil, indo residir no interior do Estado de São Paulo. No mesmo ano, mudou-se para a capital paulista, ingressando na Banda da Força Pública, em que ocupou vários postos, aposentando-se como capitão.
Sua primeira composição gravada foi "Olha a alva", por Januário Pescuma e Arnaldo Pescuma com acompanhamento do Grupo X na RCA Victor. Em 1945, Osni Silva gravou na Continental, com acompanhamento da Banda da Força Pública de São Paulo, a marcha "Pela pátria", composta em parceria com Antônio Romeu. Em 1946, Ênio Santos gravou na Continental "Destino", parceria com Antônio Romeu. Em 1949, o xote "Schotish da vovó", composto em parceria com Mário Zan foi gravado pelo próprio Mário Zan. Em 1951, obteve seu primeiro grande sucesso, com a composição "Matuto", gravada pelo grupo Piratininga na Continental. Em 1952, sua toada "Farrapo humano", composta em parceria com Arlindo Pinto, foi gravada por Carlos Antunes. Em 1953, Zezinha gravou ao acordeon os dobrados "Ibirapuera", sua parceria com a própria Zezinha, e "Princesa Isabel". Em 1954, Esmeraldino do Banjo gravou o choro "Preguiçoso" e Carlos Gonzaga gravou a canção "Canção de Natal", de J. M. Alves e Palmeira. Em 1955, Juanita Cavalcanti gravou dele e Reinaldo Santos a marcha "Pombinha branca". Em 1956, as Irmãs Galvão gravaram o baião "Alecrim na beira d'água", dele e Antônio Rago, e Alberto Calçada gravou, ao acordeon, o "Mambo da sogra", de J. M. Alves e Messias Soares. Em 1957, realizou sua única gravação, acompanhado de sua Banda: gravou pela RCA Victor, de sua autoria, os dobrados "Craveiro Lopes" e "Domingo em festa". No mesmo ano, Zaccarias e sua Orquestra gravaram dele e Mário Zan o dobrado "Quarto centenário", seu maior sucesso. Em 1958, Alberto Calçada gravou seu maxixe "O matuto", a dupla Pininha e Verinha gravou o corrido "Meu cavalinho", de parceria com Lourdes Guimarães, Nilza Miranda gravou a valsa "Prece de Natal". Em 1959, as Irmãs Galvão gravaram o rasqueado "Vai saudade", a Banda Chantecler e Coro gravou, de sua autoria e Lourdes Guimarães, a marcha "Mulher brasileira" e Sid Biá gravou o bolero "Vida noturna", de J. M. Alves e Palmeira, e o samba canção "História de um boêmio", de J.M. Alves e Biá. Em 1960, Pirigoso gravou, de sua autoria e Mário Vieira, o arrasta-pé "Baile caipira", o tango "Saudade de alguém", também em parceria com Mário Vieira, e o maxixe "Antigamente era assim", parceria de J.M. Alves e Pirigoso, e as Irmãs Galvão gravaram, de sua parceria com Zacarias Mourão, o bolero "Triste abandono". Ao longo de sua carreira, compôs diversos pontos de umbanda e pontos de terreiro, gravados por diversos intérpretes. Em 1961, Otávio de Barros gravou o ponto de terreiro "Saravá Banda". Em 1962, a cantora Maria do Carmo gravou a curimba de Umbanda "Prece a Mamãe Oxum". Um de seus mais constantes parceiros foi o também produtor e cantor Palmeira, com quem compôs, dentre outras, a "Canção de Natal", a valsa "Mãe, rainha do lar", a marcha "Tomara que caia" e o samba "Não quero amar". Ainda em 1962, compôs com Luiz Gonzaga o baião "Matuto aperreado", gravado pelo próprio Luiz Gonzaga. Compôs valsas, xotes, dobrados, baiões, maxixes e outros gêneros musicais. Em 1971, Os Titulares do Ritmo gravaram, de sua autoria e Ariovaldo Pires, a marcha "Avante, bandeirante". Um de seus principais parceiros foi Ariovaldo Pires, o Capitão Furtado, com quem compôs, entre outras, o samba-maxixe "Volta ao passado", a canção "Se Deus me perdoasse", a valsa "Quando eu te disse adeus" e o maxixe "Enchendo lingüiça". Entre seus diversos intérpretes estão as Irmãs Galvão, Zezinha, Alberto Calçada e Mário Zan. Em 1972, Zé Cupido gravou "Oito baixos do João".
A cigana te enganou • Alecrim da beira d'água (c/ Antonio Rago) • Amuletos de Iaiá (c/ Ariovaldo Pires) • Antigamente era assim (c/ Pirigoso) • Avante bandeirante (c/ Ariovaldo Pires) • Baile caipira (c/ Mário Vieira) • Boca encarnada (c/ Ariovaldo Pires) • Cenário do Brasil (c/ Palmeira) • Coração magoado • Coroa da Jurema • Craveiro Lopes • Diabinha de saia (c/ Ariovaldo Pires) • Domingo em festa • Enchendo lingüiça (c/ Ariovaldo Pires) • Esquece (c/ Araripe Barbosa) • Farrapo humano (c/ Arlindo Pinto) • Festa de aniversário (c/ Ariovaldo Pires) • Fui feliz (c/ Araripe Barbosa) • Gostei dessa (c/ Maria Silva) • Hino da Umbanda • História de um boêmio (c/ Biá) • Homenagem à Mãe Menininha (c/ Ariovaldo Pires) • Ibirapuera (c/ Zezinha) • Linda pombinha (c/ Palmeira e Alfredo Corleto) • Mãe, rainha do lar (c/ Palmeira) • Mambo da sogra (c/ Messias Garcia) • Marcha do bandeirante (c/ Ariovaldo Pires) • Matuto aperreado (c/ Luiz Gonzaga) • Meu cavalinho (c/ Lourdes Guimarães) • Meu lindo país (c/ Ariovaldo Pires) • Mulher brasileira (c/ Lourdes Guimarães) • Não é nada (c/ Palmeira) • Não quero amar (c/ Palmeira) • O matuto • O Sol nasce para todos (c/ Ariovaldo Pires) • Olha a direita (c/ Palmeira) • Pão duro • Pierrô de antigamente • Pobre boêmio (c/ Cláudio de Barros) • Pombinha branca (c/ Reinaldo Santos) • Ponto de abertura (c/ Terezinha de Souza e Vera Dias) • Ponto dos caboclos • Prata da casa • Prece a Mamãe Oxum • Prece de Natal • Preguiçoso • Princesa Isabel • Quando eu te disse adeus (c/ Ariovaldo Pires) • Quarto centenário (c/ Mário Zan) • Rabo de arraia (c/ Zacarias Mourão) • Recife dos quatrocentos (c/ Ida Monge) • Santa do meu altar (c/ H. Junior) • São Jorge Guerreiro • Saravá banda • Saravá Oxosse • Saudação aos Orixás • Saudade de alguém (c/ Mário Vieira) • Schotishh da vovó (c/ Mário Zan) • Se Deus me perdoase (c/ Ariovaldo Pires) • Segunda pátria (c/ Ariovaldo Pires) • Tangolomango (c/ Ariovaldo Pires) • Terra brasileira (c/ Ariovaldo Pires) • Tietê, cidade jardim (c/ Ariovaldo Pires) • Tomara que caia (c/ Palmeira) • Triste abandono (c/ Zacarias Mourão) • Tristeza • Um dois... feijão co'arroz (c/ Ariovaldo Pires) • Vai saudade • Valsa da Imperatriz (c/ Irvando Luiz) • Vida noturna (c/ Palmeira) • Viver na eternidade (c/ Ariovaldo Pires) • Volta à serenata (c/ Ariovaldo Pires) • Volta ao passado (c/ Ariovaldo Pires) • Xangô rolou a pedra • Xangô, rei da pedreira


BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, M. A . de (NIREZ) et al. Discografia brasileira em 78 rpm. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.
MARCONDES, Marcos Antônio. (ED). Enciclopédia da Música popular brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed. São Paulo: Art Editora/Publifolha, 1999.

Dados colhidos no site http://www.dicionariompb.com.br

O Instituto Cultural Cravo Albin é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, com sede na cidade do Rio de Janeiro, criada em 2001, com a finalidade de promover e incentivar atividades de caráter cultural no campo da pesquisa, em especial, abrigando o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. O acervo, doado ao Instituto por Ricardo Cravo Albin, acrescido de outras doações feitas por colecionadores e demais detentores de acervos congêneres, é composto por documentos originais, fotografias, recortes de jornais e revistas, scripts e programas de rádio e televisão, roteiros de espetáculos musicais e um arquivo fonográfico já inventariado preliminarmente, com cerca de 30.000 (trinta mil) discos de 12, 10 e 8 polegadas, 2.000 (duas mil) fitas sonoras em rolo, 700 (setecentas) fitas magnéticas sonoras em cassete e cerca de 1000 (mil) CDs. Complementa este acervo uma grande quantidade de documentos audiovisuais, registrados em suporte vídeo, como fitas cassete, contendo vários registros.


Nenhuma pesquisa histórica conseguiu comprovar a origem da autoria do Hino da Umbanda, pois a pesquisa histórica necessita de documentos originais (pesquisa primária). Os dados biográficos sobre José Manuel Alves podem ser comprovados, porém a real origem do Hino da Umbanda ainda carece de maiores comprovações documentais escritas ou orais. Quando, em 1984, Dona Zélia de Moraes Lacerda ficou hospedada na minha residência, em São Paulo, perguntei-lhe a respeito e ela desconhecia o fato que, atualmente, vem sem narrado em alguns sítios da Internet. Até encontrarmos maiores evidências sobre a origem do hino, fica o registro dos fragmentos que temos lido.
A música e a letra teriam sido compostas, em 1960, quando um homem cego, José Manuel Alves, foi procurar a cura na Tenda Nossa Senhora da Piedade. Foi atendido pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas que lhe explicou a origem kármica da sua deficiência visual. Começou a frequentar as giras de atendimento e a Umbanda começou a fazer parte da sua alma. Escreveu então, uma música para mostrar que poderia ver o mundo e a Umbanda de outro modo. Mostrou-a ao Caboclo das Sete Encruzilhadas que, teria gostado tanto, que resolveu apresentá-la como o Hino da Umbanda.
No Segundo Congresso Nacional de Umbanda, em 1961 no Rio de Janeiro, a música foi oficialmente reconhecida como o Hino da Umbanda.



[1] Tangil é uma bela freguesia do concelho de Monção situada no Minho, no norte de Portugal.

2 comentários:

Eduardo Fabiano Afonso Santos disse...

Mestre, parabéns pelo Blog!
A matéria sobre o Hino da Umbanda ficou excepcional!
Queria saber se há alguma tese histórica sobre a Umbanda na época da Ditadura, e como o Movimento Umbandista se comportou na época...Ano que vem vou cursar história e isso é um ponto interessante a se discutir...Paz e Luz!

Diamantino F. Trindade disse...

Eduardo, obrigado pelo comentário.
Existe um livro que aborda bem os aspectos da Umbanda na Ditadura.
Umbanda e Politica. A autora é Diana Brow. O livro está esgotado, mas é possível encontrar nos sebos.
Muita Paz!