sábado, 29 de março de 2014

JOÃOZINHO DA GOMÉIA

A Palmares Fundação Cultural publicou interessante matéria sobre o meu avô de santé Joãzinho da Goméia.

Diamantino Fernandes Trindade


Depois de 1933 o Candomblé nunca mais seria visto da mesma maneira. Foi nesse ano que João Alves de Torres Filho, o Joãozinho da Goméia, foi iniciado na religião pela tradição Angola. O garoto nascido em 27 de março de 1914, na cidade de Inhambupe, a 153 quilômetros de Salvador, Bahia, foi dono de personalidade que seria o combustível para tal mudança. Seria ele, o grande responsável pela popularização da religião no Brasil e ficaria conhecido como Rei do Candomblé.
Foi aos 10 anos de idade que o garoto começou a sentir fortes e inexplicáveis dores de cabeça e a sonhar constantemente com um “um homem cheio de penas”. Avisos dos orixás que o fariam buscar a iniciação na religião e tornar-se o primeiro sacerdote do Candomblé de Caboclo realmente conhecido no país. Em outra fase de sua vida, refez o santo no Terreiro do Gantois com Mãe Menininha e eternizou-se como referência nas tradições do Candomblé: Angola, Bantu e de Caboclo.
Preconceitos e ascensão - Negro, de personalidade irreverente à sua época e à sua envergadura como líder espiritual, Joãozinho foi homossexual assumido, compositor, dançarino, costureiro e bom garantidor de polêmicas ao apresentar as danças sagradas dos orixás em espaços públicos. Além do racismo e dos preconceitos vividos por suas escolhas de vida, sofreu críticas dos seus irmãos de religião que não admitiam um pai-de-santo se dedicar a um caboclo – espírito encantado originário das religiões indígenas, sem relação com a África -, no caso, o Caboclo Pedra Preta.
Joãozinho foi um homem com ascensão meteórica para um religioso que transgredia as regras dos chamados grandes terreiros. Sabia do poder da imprensa e nela se apoiou ao ponto de chegar a uma fama comparável somente a de Mãe Menininha do Gantois. Foi o primeiro pai-de-santo a perceber o poder da comunicação e a usá-lo para reduzir a discriminação contra o Candomblé.  Manteve relações com publicações importantes como a revista O Cruzeiro e, apesar de todo esse reconhecimento, esteve longe de ser uma unanimidade entre o povo de santo.
Seu primeiro terreiro foi erguido num bairro chamado Ladeira de Pedra, mas logo foi transferido para o local que o tornou famoso, a ponto de incorporar o endereço ao próprio nome: Rua da Goméia. Em 1948, o pai-de-santo deixou a Bahia e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde abriu casa no município de Duque de Caxias. Seu terreiro era feito com modestas instalações, o que não o impediu de tornar-se um local famoso.
Ainda, nas décadas de 1950 e 1960, o Terreiro da Goméia passou a ser referência, não só por ser um dos primeiros terreiros de Candomblé na região sudeste, mas também pelos seus frequentadores, políticos e artistas de todos os lugares. Entre eles, Cauby Peixoto, Dorival Caymmi, Emilinha Borba, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Maria Antonieta Pons, Marlene, Paulo Gracindo, Solano Trindade, Tenório Cavalcanti e José Bispo dos Santos ou Pai Bobó.
Passagem – Após 57 anos de vida e 40 de dedicação ao Candomblé, Joãozinho da Goméia desencarnou. Era 19 de março de 1971, quando na mesa de cirurgia o babalorixá não resistiu ao procedimento que o libertaria de um tumor cerebral. Por estranha coincidência, no mesmo dia, seu terreiro em Duque de Caixas promoveria o Lorogun – uma das grandes cerimônias do Candomblé que significa o fechamento do terreiro para o período da Quaresma.
Joãozinho foi sepultado no cemitério de Duque de Caxias, num dia em que uma chuva de proporções míticas caiu sobre o Rio de Janeiro, exatamente na hora em que seu ataúde baixava à sepultura. Para os adeptos, uma manifestação de Iansã recebendo seu filho, o que culminou em muitos filhos-de-santo incorporando seus orixás e dançando, em transe, em pleno cemitério.
Herdeiros da Goméia - Sete dias após a morte de Joãozinho, os búzios foram jogados para que fosse indicado o herdeiro do trono da Goméia carioca. Para surpresa de todos, a escolhida foi Sandra Reis dos Santos, aos nove anos de idade. Filha de Kitala Mungongo, iniciada por Joãozinho há 80 anos, Sandra que é  hoje Ceci Caxi, nasceu dentro da Goméia no dia primeiro de novembro de 1961, pelas mãos do próprio seu João, que também foi seu padrinho de batismo.
Os terreiros erguidos por Joãozinho foram extintos depois de sua morte. Porém o babalorixá formou diversos filhos-de-santo, que criaram novos terreiros em São Paulo e no Rio de Janeiro. São casas de Candomblé que ainda hoje se apresentam orgulhosamente como fazendo parte do “modelo Goméia”, ou da “raiz Goméia”. No Sudeste, seu nome é uma verdadeira grife da religião. Em Salvador, o terreiro também teve um triste fim, foi desfeito e a área onde se localizava é hoje ocupada por instalações da Embasa.
Entre os religiosos que também dão continuidade a linhagem da Goméia, estão ainda  Maria Lúcia Santana Neves (mãe Lúcia), herdeira da Goméia na Bahia, e Sebastião Paulo da Silva (Gitadê), que se responsabilizou por garantir descendentes da linhagem em São Paulo, estado para onde levou os assentamentos de Joãozinho a fim de zelar para que os ibás de seu Oxossi e sua Iansã permaneçam devidamente cuidados e alimentados.
Quanto ao caboclo Pedra Preta, a entidade mais famosa incorporada por Joãozinho, ficou sem um sucessor à altura. O assentamento do Caboclo se encontra atualmente no Terreiro São Jorge, na Bahia. As histórias contadas pelas pessoas que conheceram Joãozinho são o que vêm perpetuando sua memória.
A Fundação Cultural Palmares tentou entrar em contato com os herdeiros da Goméia para entrevistá-los, porém não foi possível devido a condição de saúde de Gitadê, a viagem de Mãe Lúcia à Portugal e a localização de Ceci Caxi.Fontes:Artigo Joãozinho da Goméia, o Rei do Candomblé de Marccelus BraggArtigo A Luta pela Goméia e o Resgate da história de  Waldemar Alvarenga LapoenteArtigo O Negro Baiano Pai Joãozinho da Goméia: o Candomblé de Duque de Caxias na mídia dos anos cinquenta de Joselina da SilvaArtigo Joãozinho da Goméia, o Tatá Londirá, o Rei do Candomblé de Caboclo por Alexandre Santos