quinta-feira, 4 de setembro de 2014

UMBANDA NÃO É MACUMBA!

Reportagem de Sabino Canalini  


Revista da Semana, 5 de Dezembro de 1951, n. 50


Sempre que se fala em terreiros e em sessões espíritas pela Lei de Umbanda a maioria das pessoas esconde a curiosidade ou a ignorância sobre o assunto atrás de classificações mais ou menos desairosas a respeito de matéria tão delicada.Em geral tem-se o terreiro como lugar em que se pratica o baixo espiritismo. Mas não é fácil definir o que seja o alto espiritismo.Dizem-na ilegal, isto é, praticada fora da lei, acobertada pela noite, em lugares escusos, escondendo sempre segundas intenções. Infelizmente acontecem às vezes fatos que quase comprovam a veracidade de tais opiniões. É recente o caso de Campos, onde, pela influência maléfica de um falso pai de santo, entregou-se um homem ao horripilante banquete de carne de defunto, em obediência à receita imposta por quem “diagnosticara” o mal. Seres perversos existem em todas as coletividades humanas e não é pelo exemplo dado por eles que devemos generalizar sobre essa ou aquela sociedade. Grande parte das interpretações erradas sobre a Lei de Umbanda é devida ao desejo de seus praticantes se manterem afastados de qualquer propaganda, evitando sensacionalismos prejudiciais. Daí, porém, até chegar à ilegalidade, há muita diferença. Para desfazer impressões que poderiam causar dúvidas, fomos procurar no Encantado, o Terreiro Abalauaê.

Consultando seus dirigentes, soubemos que o funcionamento é permitido por alvará, tendo o Diário Oficial de 27 de setembro de 1947 publicado a ata de fundação da sociedade e seus estatutos, nos quais reza que a finalidade é caridade moral, material e espiritual por todos os meios ao seu alcance.Assistência social, médica, instrutiva. O que diz respeito à medicina não é praticada sem base, contando com os cuidados profissionais gratuitos de um facultativo. E isso pode ser verificado em todos os centros espiritas! Em alguns vimos verdadeiras clinicas, o que demonstra que a difícil arte de curar não é adotada por empirismo.

Quanto à assistência material, isso quer dizer que aos que não tem meios suficientes, os remédios são doados. As consultas não são pagas. Para sustento da organização, conta o terreiro com um quadro social, como outra qualquer agremiação. Todos, sem distinção, podem usufruir o que de boa vontade é oferecido nesses centros.

Todo cuidado é pouco na escolha dos mesmos, pois há a possibilidade de se cair nas malhas de espertalhões, como o de Campos. Os que dirigem o terreiro não vivem dessa atividade: todos tem profissões diversas que praticam para tirar o suficiente à vida cotidiana. Comerciários, em sua maioria, bancários, industriários, comparecem às sessões por uma necessidade espiritual, para beneficiar um pouco o próximo com os poderes que os médiuns recebem do alto. O que mais impressiona, especialmente aos calouros, é o ritual, considerado bárbaro, atrasado, indigno dos nossos foros de pais civilizados.
Na realidade é uma das facetas mais focalizadas quando a quer descrever o Brasil nos países estrangeiros. Tudo o que é exótico serve de publicidade. Poucos sabem, no entanto, que a “macumba” não é realizada apenas em nosso pais. Na velha Europa, em que a cultura atingiu sua culminância, na própria supercivilizada França, há populações tão atrasadas quanto as nossas, onde até a magia preta é levada a efeito. Antes de mais nada queremos dizer que o termo “macumba” é impróprio. Dá-se esse nome a um instrumento indígena, tipo de reco reco, e de macumbeiro a que o toca. O espiritismo admite a possibilidade dos feitiços, com intenções maldosas e até funestas. É a finalidade da Quimbanda.

Para atenuar a ação dos espíritos maus que atuam nessas sessões é que surgiu a Lei de Umbanda, bem mais antiga do que o descobrimento do Brasil. Trazida talvez pelos escravos, de mistura com a liturgia dos índios aborígenes, mais os ritos medievais que os perseguidos da inquisição europeia infiltravam pelos navios lusos e os corsários de muitas outras nacionalidades, formou-se o que poderá ser conhecido como ritual brasileiro. Não é mais pura, amalgamou-se com a religião católica, de quem adora os santos e é dedicada especialmente a quem, pela cultura própria, não poderia admitir coisa superior. Não há nisso nenhum desprezo de nossa parte. Apenas reconhecemos o fato de que se todas as pessoas, na face da terra, possuem, por esta ou aquela razão, a mesma instrução, educação e base de conhecimentos da vida, sua evolução e seus mistérios.Já fizemos confronto com os três graus da instrução comumente aplicada em nossas escolas. Já chamamos a atenção para os que pareciam se enfadar nas sessões dirigidas por Chico Xavier em Pedro Leopoldo. Para esses é quase incompreensível uma cerimônia em que não haja um pouco de religião, um pouco de música, um pouco de dança, cantos e um pouco de medicina. Isso é muito parecido com o que se pratica por aí como última novidade saída dos mais adiantados laboratórios de pesquisas transcendentais. Por ser praticado por gente humilde, não merece nosso desprezo. A influência dos africanos na formação de nossa nacionalidade é enorme.O folclore incumbiu-se de recolher os ritmos, os cantos e os “passes” dos tristes e melancólicos pretos violentamente arrancados de seus países de origem. O sentimentalismo dos negros de Luanda continua a influenciar seus descendentes, inclusive numa doutrina que aos poucos está se firmando, pela maior compreensão de suas finalidades. Nem todos podem admitir um raciocínio baseado no kardecismo assim como nem todos podem admitir que a terra gira no espaço ou apenas, como agora, que a hora de verão nada tem a ver com a política. Falta de instrução, eis a principal falha de nossa sociedade. Os terreiros vivem cheios de frequências as mais heterogêneas, inclusive de pessoas que pelo ambiente em que vivem, pela posição social que ocupam, estão na obrigação de possuir maior cultura.

A curiosidade ou pedidos estranhos são os motivos que os animam a frequentar os terreiros. A finalidade do espiritismo não é atender aos desejos dos candidatos nas eleições para serem bem sucedidos, ou para ajudar os estudantes em período de provas, para passar de ano. A humanidade conta com a força de vontade e com o livre arbítrio justamente para resolver esses casos de sua exclusiva alçada. O mérito deve ser unicamente do homem, de outra forma seria lícito também pedir um palpite para o jogo do bicho. O que o espiritismo ensina é a viver segundo os preceitos do Cristo, no amor ao próximo e para o bem da humanidade. Essas regras universais podem ser observadas inclusive na Lei de Umbanda repetimos, que deve ser considerada como o segundo estágio do aperfeiçoamento da alma humana.
O bem e o mal se degladiam continuamente: depende de nós, unicamente de nós, escolher o caminho. Umbanda não ensina o mau caminho. 


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