sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A PESQUISA NA HISTÓRIA DA UMBANDA

Dezenas de sites da Internet, artigos, jornais e livros abordam a História da Umbanda utilizando-se da pesquisa secundária e terciária. Poucos utilizam a pesquisa primária, afastando-se assim da realidade histórica. É impossível ao historiador a imparcialidade. Desde a escolha de documentos até a redação do trabalho são feitas escolhas, que não são causais. Qualquer tentativa de escrever sobre um fato ou período histórico envolve seleção, julgamento e pressupostos metodológicos. A História não pode ser nunca puramente descritiva, pois sempre haverá elementos de avaliação em qualquer relato. Sendo assim, o máximo que um historiador pode fazer no seu trabalho é alcançar uma face da verdade, que não é absoluta e sim variável de acordo com as condições que se apresentam no momento da escrita.
Quando escrevi pela primeira vez sobre a História da Umbanda[1] utilizei apenas a pesquisa secundária fundamentada nos relatos e apostilas da Federação Umbandista do Grande ABC, escritas por Ronaldo Linares que havia feito algumas entrevistas com Zélio de Moraes e relatos de Lilia Ribeiro que também havia entrevistado Zélio. Esses relatos e apostilas levaram-me à pesquisa primária por meio das diversas visitas a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade (entre 1984 e 1990), a primeira tenda de Umbanda. Durante essas visitas e um retiro de três dias na Cabana de Pai Antonio, em Cachoeiras de Macacu, Dona Zélia de Moraes e Dona Zilméia de Moraes revelaram-me preciosos dados sobre a implantação da Umbanda no Brasil, por meio do Caboclo das Sete Encruzilhadas e seu médium Zélio de Moraes. Colocaram à minha disposição fotos e documentos que possibilitaram uma pesquisa primária mais detalhada sobre a Umbanda. Um desses documentos disponibilizados foi uma cópia da rara obra de Leal de Souza, de 1933, intitulada O Espiritismo, a Magia, e as Sete Linhas de Umbanda, onde relatava diversos acontecimentos históricos da Umbanda. Este escritor tinha uma relação direta com Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Dirigiu, sob ordem deste Caboclo, a Tenda Nossa Senhora da Conceição. Em 1984, Dona Zélia de Moraes hospedou-se na minha casa, em São Paulo, por três dias onde tive a oportunidade de conseguir mais dados históricos sobre a Umbanda.
Com este material escrevi, utilizando a pesquisa primária, o livro Iniciação à Umbanda, 1986, que trazia a primeira abordagem mais completa, até então, da História da Umbanda no Brasil. A partir daí fiz diversas pesquisas e entrevistas em terreiros e federações de Umbanda e cultos afro-brasileiros. Consegui também diversos documentos sobre o trabalho de W.W. da Matta e Silva, que escreveu nove obras abordando os aspectos esotéricos da Umbanda. Ampliei assim a minha pesquisa primária e, em 1991, publiquei o livro Umbanda e Sua História, sendo este o primeiro livro de História da Umbanda no Brasil.
Em agosto de 2008, quando estava terminando de escrever o livro Umbanda Brasileira: um século de história[2] consegui um raro exemplar da obra No Mundo dos Espíritos, publicado em 1925, de Leal de Souza. Este sim é o primeiro livro que trata da Umbanda. Alguns trechos desta obra foram publicados neste livro.
Pouco se sabia da vida de Leal de Souza até então. Iniciei uma pesquisa, por intermédio da Internet, e consegui algumas referências de autores que escreveram sobre ele. Comecei, então, uma busca em “sebos” pelo Brasil afora e consegui 17 preciosos livros, algumas revistas, além de três outras obras de Leal de Souza. Para minha surpresa, um poema seu foi psicografado por Chico Xavier.
Com este material escrevi o livro Antônio Eliezer Leal de Souza: o primeiro escritor da Umbanda[3] que procura resgatar, pelo menos em parte, a vida pessoal e literária deste brilhante escritor que teve papel de destaque no parnasianismo, onde Olavo Bilac foi a figura mais importante, no jornalismo carioca e na literatura espírita e umbandista. Foi um defensor e praticante dedicado do Espiritismo e da Umbanda, tendo feito conferências na Federação Espírita Brasileira e convivido, durante vinte e três anos, com Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Dirigiu, sob as ordens e orientação desta Entidade, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, uma das sete tendas mestras responsáveis pela implantação da Umbanda em nosso pais.
A minha pesquisa primária não cessa, pois a cada dia novos documentos aparecem e revelam aspectos ainda não conhecidos desta religião que completou 100 anos em 2008. Quando um pesquisador recorre apenas à pesquisa secundária e terciária incorre em erros que comprometem a realidade histórica.
Um exemplo da legitimidade da pesquisa primária podemos ver no seguinte caso: os relatos de Zélio de Moraes remetem a fundação da Umbanda no dia 15 de novembro de 1908 quando seu pai o levou a Federação Espírita de Niterói, dirigida por José de Souza. A Federação Espírita de Niterói é conhecida atualmente como Instituto Espírita Bezerra de Menezes. José Henrique Motta de Oliveira, em sua pesquisa de mestrado, entrevistou a Diretora de Divulgação deste Instituto, a Senhora Yeda Hungria, que consultou o Livro de Atas número 1 e nenhum registro foi encontrado sobre a manifestação mediúnica de Zélio de Moraes. Informou também que não há registros da reunião de 15 de novembro de 1908. Explicou ainda que o Instituto (antiga Federação) nunca foi presidida pelo Senhor José de Souza. Nessa época, a Federação tinha como presidente o Senhor Eugênio Olímpio de Souza (biênio 1907-1909). O Senhor José de Souza não aparece como ocupante de qualquer cargo da Federação, nem entre o registro de sócios.
Não podemos duvidar dos relatos de Zélio de Moraes e Leal de Souza, porém a pesquisa de Diana Brown, antropóloga e pesquisadora da Universidade de São Paulo, mostra que o evento ocorreu na Federação Espirita do Rio de Janeiro, sediada, na época, em Niterói. Por isso faz-se necessário que todos que escrevem sobre a História da Umbanda especifiquem se realizaram pesquisa primária, secundária, terciária etc. Qual a metodologia utilizada? Não basta consultar e copiar os escritos de Lilia Ribeiro, Ronaldo Linares, Diamantino Fernandes Trindade, Diana Brown e outros. É preciso ter acesso aos documentos históricos e realizar entrevistas nas fontes de origem. Isto faz parte daquilo que, nos meios acadêmicos, conhecemos como história oral.
Novamente, utilizando a pesquisa primária, escrevi o livro A construção histórica da literatura umbandista.[4] História não é Ciência, mesmo assim, utilizando metodologia científica, apresento momentos históricos da literatura umbandista que achei convenientes. O historiador não é imparcial, pois quando elege os documentos para sua pesquisa, já está sendo parcial. Em cada obra há um enfoque diferente, o que leva algumas pessoas a interpretar isso como um abandono de antigas idéias.
Historiador é aquele que escreve a Historia segundo a sua ótica em função de documentos originais orais e escritos.
Uma recomendação para aqueles que não gostam das minhas idéias: não leiam o que eu escrevo!

Diamantino Fernandes Trindade
Pós-Doutor em Educação pelo GEPI-PUCSP
Doutor em Educação pela PUC-SP
Mestre em Educação pela Universidade Cidade de São Paulo
Master Science in Education Science – City University Los Angeles
Professor de História da Ciência, Epistemologia e Metodologia Científica do
Instituto Federal de Educação de São Paulo
Membro do Centro Cultural Africano
Sacerdote da Federação Umbandista do Grande ABC
[1] Aspectos históricos e sociais da Umbanda no Brasil, monografia de conclusão do curso de pós-graduação em Estudos Brasileiros pela Universidade Mackenzie (1983).
[2] Este livro foi lançado em novembro de 2008 pela Ícone Editora.
[3] Obra publicada, em 2009, pela Editora do Conhecimento.
[4] Obra publicada, em 2010, pela Editora do Conhecimento.

2 comentários:

claudia disse...

por favor preciso de ajuda e esclarecimentos pessoas q se dizem umbandista pode cobrar?e cobrar caro tipo 12 mil reais por um trabalho que ele diz terem feito para pessoa \?por favor me responda

Diamantino F. Trindade disse...

Claudia!
O Caboclo das Sete Encruzilhadas nunca permitiu que o seu médium, Zélio de Moraes, cobrasse um centavo por qualquer trabalho realizado. A Umbanda nasceu caritativa e quem cobra pelos trabalhos está desvirtuando os ensinamentos das entidades.
A caridade não tem preço, o médium tem essa tarefa e não pode cobrar pelo atendimento.
Quem cobra 12 mil reais por um trabalho espiritual é um estelionário astral. Não aceite, em hipótese alguma, esse procedimento.