sábado, 11 de outubro de 2008

A Metodologia da Pesquisa na História da Umbanda

A METODOLOGIA DA PESQUISA NA HISTÓRIA DA UMBANDA

Diamantino Fernandes Trindade


Dezenas de sites da Internet, artigos, jornais e livros abordam a História da Umbanda utilizando-se da pesquisa secundária e terciária. Poucos utilizam a pesquisa primária, afastando-se assim da realidade histórica. É impossível ao historiador a imparcialidade. Desde a escolha de documentos até a redação do trabalho são feitas escolhas, que não são causais. Qualquer tentativa de escrever sobre um fato ou período histórico envolve seleção, julgamento e pressupostos metodológicos. A História não pode ser nunca puramente descritiva, pois sempre haverá elementos de avaliação em qualquer relato. Sendo assim, o máximo que um historiador pode fazer no seu trabalho é alcançar uma face da verdade, que não é absoluta e sim variável de acordo com as condições que se apresentam no momento da escrita.
Quando escrevi pela primeira vez sobre a História da Umbanda[1] utilizei apenas a pesquisa secundária fundamentada nos relatos e apostilas da Federação Umbandista do Grande ABC, escritas por Ronaldo Linares que havia feito algumas entrevistas com Zélio de Moraes e relatos de Lilia Ribeiro que também havia entrevistado Zélio. Esses relatos e apostilas levaram-me à pesquisa primária por meio das diversas visitas a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade (entre 1984 e 1990), a primeira tenda de Umbanda. Durante essas visitas e um retiro de três dias na Cabana de Pai Antonio, em Cachoeiras de Macacu, Dona Zélia de Moraes e Dona Zilméia de Moraes revelaram-me preciosos dados sobre a implantação da Umbanda no Brasil, por meio do Caboclo das Sete Encruzilhadas e seu médium Zélio de Moraes. Colocaram à minha disposição fotos e documentos que possibilitaram uma pesquisa primária mais detalhada sobre a Umbanda. Um desses documentos disponibilizados foi uma cópia da rara obra de Leal de Souza, de 1933, intitulada O Espiritismo, a Magia, e as Sete Linhas de Umbanda, onde relatava diversos acontecimentos históricos da Umbanda. Este escritor tinha uma relação direta com Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Fundou, sob ordem deste Caboclo, a Tenda Nossa Senhora da Conceição. Em 1984, Dona Zélia de Moraes hospedou-se na minha casa, em São Paulo, por três dias onde tive a oportunidade de conseguir mais dados históricos sobre a Umbanda.
Com este material escrevi, utilizando a pesquisa primária, o livro Iniciação à Umbanda[2], 1986, que trazia a primeira abordagem mais completa, até então, da História da Umbanda no Brasil. A partir daí fiz diversas pesquisas e entrevistas em terreiros e federações de Umbanda e cultos afro-brasileiros. Consegui também diversos documentos sobre o trabalho de W.W. da Matta e Silva, que escreveu nove obras abordando os aspectos esotéricos da Umbanda. Ampliei assim a minha pesquisa primária e, em 1991, publiquei o livro Umbanda e Sua História[3], sendo este o primeiro livro de História da Umbanda no Brasil.
Recentemente, em agosto de 2008, quando estava terminando de escrever o livro Umbanda Brasileira: um século de história[4] consegui um raro exemplar da obra No Mundo dos Espíritos, publicado em 1925, de Leal de Souza. Este sim é o primeiro livro que trata da Umbanda. Alguns trechos desta obra foram publicados neste livro.
Pouco se sabia da vida de Leal de Souza até agora. Iniciei uma pesquisa, por intermédio da Internet, e consegui algumas referências de autores que escreveram sobre ele. Comecei, então, uma busca em “sebos” pelo Brasil afora e consegui oito preciosos livros, além de três outras obras de Leal de Souza. Para minha surpresa, um poema seu foi psicografado por Chico Xavier.
Com este material escrevi o livro Antônio Eliezer Leal de Souza: o primeiro escritor da Umbanda[5] que procura resgatar, pelo menos em parte, a vida pessoal e literária deste brilhante escritor que teve papel de destaque no parnasianismo, onde Olavo Bilac foi a figura mais importante, no jornalismo carioca e na literatura espírita e umbandista. Foi um defensor e praticante dedicado do Espiritismo e da Umbanda, tendo feito conferências na Federação Espírita Brasileira e convivido, durante vinte e três anos, com Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas. Fundou, sob as ordens e orientação desta Entidade, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição, uma das sete tendas mestras responsáveis pela implantação da Umbanda em nosso pais.
A minha pesquisa primária não cessa, pois a cada dia novos documentos aparecem e revelam aspectos ainda não conhecidos desta religião que completa cem anos em 2008. Quando um pesquisador recorre apenas à pesquisa secundária e terciária incorre em erros que comprometem a realidade histórica.
Um exemplo da legitimidade da pesquisa primária podemos ver no seguinte caso: os relatos de Zélio de Moraes remetem a fundação da Umbanda no dia 15 de novembro de 1908 quando seu pai o levou a Federação Espírita de Niterói, dirigida por José de Souza. A Federação Espírita de Niterói é conhecida atualmente como Instituto Espírita Bezerra de Menezes. José Henrique Motta de Oliveira, em sua pesquisa de mestrado, entrevistou a Diretora de Divulgação deste Instituto, a Senhora Yeda Hungria, que consultou o Livro de Atas número 1 e nenhum registro foi encontrado sobre a manifestação mediúnica de Zélio de Moraes. Informou também que não há registros da reunião de 15 de novembro de 1908. Explicou ainda que o Instituto (antiga Federação) nunca foi presidida pelo Senhor José de Souza. Nessa época, a Federação tinha como presidente o Senhor Eugênio Olímpio de Souza (biênio 1907-1909). O Senhor José de Souza não aparece como ocupante de qualquer cargo da Federação, nem entre o registro de sócios.
Não podemos duvidar dos relatos de Zélio de Moraes e Leal de Souza, mas somos levados a pensar que o evento deve ter ocorrido num Centro Espírita filiado à “Federação Espírita de Niterói” e não na sede da mesma. O nome deste centro deve ter se perdido na repetição da tradição oral. Diana Brown, antropóloga e pesquisadora da Universidade de São Paulo, que pesquisou durante vários anos a implantação da Umbanda no Brasil, cita que a Federação onde Zélio foi atendido, era a Federação Espírita do Estado do Rio de Janeiro (então sediada em Niterói). Por isso faz-se necessário que todos que escrevem sobre a História da Umbanda especifiquem se realizaram pesquisa primária, secundária, terciária etc. Qual a metodologia utilizada? Não basta consultar e copiar os escritos de Lilia Ribeiro, Ronaldo Linares, Diamantino Fernandes Trindade e Diana Brown. É preciso ter acesso aos documentos históricos e realizar entrevistas nas fontes de origem. Isto faz parte daquilo que, nos meios acadêmicos, conhecemos como história oral.
Escrever sobre a Umbanda não é tarefa para leigos, repórteres ou curiosos. Estes, por falta de percepção, sensibilidade ou de conhecimento vêm a Umbanda como um emaranhado de práticas oriundas das mais diversas religiões. Jamais pararam para se perguntar porque um culto, por eles mesmos tratado como fetichista, pode atrair milhões de pessoas. Diriam até que seria pelo aspecto etno-cultural das mais diversas classes sócio-culturais. Que mistério há por traz desses ritos que consideram confusos e destituídos de bom senso? Por que tantos a atacam? É preciso conhecer seus aspectos fenomênicos, magísticos, mediúnicos, ritualísticos, doutrinários e filosóficos, nas suas causas. É preciso também que se tenha um vivencial do dia-a-dia de seus terreiros e templos. Raros, raríssimos são os que têm essa experiência. Enquanto a Umbanda se abre num leque de mil cores, muitos se interessam apenas pela qual se afinizam, certos de que é a melhor. Outros pretendem impor um determinado ritual porque é aquele que lhes trás mais benefícios.
Quem quiser, apenas de longe, saber o que a Senhora das Mil Faces representa para o povo brasileiro, basta ver o que acontece nas praias na passagem do ano. Lá se encontram ricos, pobres, brancos, negros, mestiços, todos juntos, acendendo suas velas, e ofertando flores a Yemanjá, pedindo que o ano lhes seja propício. Esta manifestação colossal é peculiar, é própria da fé ou da mística umbandista. Muitos se aproximam da Umbanda pois pressentem sua força, sua magia, seu poder de transformação. A Umbanda aceita, respeita as necessidades de cada grupo naquilo que os faz sentirem-se unidos ao Sagrado. Por isso Ela parece tão variada em suas manifestações pois cada unidade-terreiro exprime com fidelidade as necessidades daqueles que ali acorrem. Para muitos esta maleabilidade é confundida como uma mistura desconexa, mas na verdade apenas traduz, em seus aspectos mais profundos, um motivo: atingir a síntese do conhecimento humano, lembrar a todos que como Caboclo, Preto-Velho e Criança, também somos espíritos eternos e imortais e que cada existência nos serve de aprendizado e aperfeiçoamento para vidas futuras, caminhando rumo à nossa realidade. Esta é a Umbanda de Todos Nós. Por isso repito: escrever sobre a Umbanda não é tarefa para leigos, repórteres ou curiosos.

Um saravá[6] profundo a todos os leitores!

[1] Aspectos históricos e sociais da Umbanda no Brasil, monografia de conclusão do curso de pós-graduação em Estudos Brasileiros pela Universidade Mackenzie (1983).
[2] Uma nova edição mais completa deste livro foi publicada em 2008 pela Madras Editora.
[3] Publicado pela Ícone Editora.
[4] Este livro será lançado em novembro de 2008 pela Ícone Editora.
[5] O download gratuito desta obra pode ser conseguido no site www.mandaladosorixas.com
[6] O escravo banto quando chegou ao Brasil precisou adaptar a sua língua ao Português. Era difícil pronunciar a letra L. Acabava dobrando a vogal. Então a palavra SALVE tornou-se SALAVE e depois SALAVA, o que acabou gerando SARAVÁ.

2 comentários:

Anônimo disse...

Obrigado, Prof. Diamantino, por lembrar do meu modesto trabalho.
Salve Umbanda!
José Henrique M. Oliveira

Diamantino F. Trindade disse...

José Henrique! O seu trabalho é muito importante.