domingo, 18 de abril de 2010

UMBANDA NA MÍDIA - PARTE 5


Diamantino Fernandes Trindade


Uma revista que circulou por vários anos no Rio de Janeiro foi Kabala, dirigida por Domingos M. S. Ayroza e publicada pela Editora Revista do Capitão Atlas. No número 95, de julho de 1962, comemorativo do oitavo aniversário do periódico, aparece uma matéria escrita por João de Freitas na coluna Umbanda em flashes:

A dialética exige do orador conhecimentos gerais para que num diálogo ele argumente com precisão através do raciocínio claro e preciso.
Na Umbanda, o dialético precisa conhecer de história universal, de mitologia, de teologia, de doutrina, e, sobretudo, das leis, que regem o Universo. Sem tais requisitos ele se transforma em simples e intolerável demagogo, em palrador sem méritos, em veiculo de excitação das paixões coletivas.
Eis porque o demagogo é sempre visto como a um biltre que da lisonja e do louvor barato faz dos ingênuos e dos simplórios a escada de salvação para a sua ancestral mediocridade.
Atraídos pela cifra de milhões de adeptos, dessa religião que vaga sem norte por falta de um órgão de cúpula, pululam em todo território nacional inflamados oradores, sem lastro moral e intelectual que os credenciem, como candidatos a prefeitos, a deputados e a vereadores. Exploram a parvoíce de certos chefes de terreiro e a ingenuidade de algumas babás que não sabem distinguir a verdade da impostura, a decência da indignidade e a compostura da insensatez. É nesta hora que assistimos, com profunda tristeza, a inteligência, a cultura e o saber de muitos homens responsáveis pelos destinos da Umbanda em estarrecedora ausência.
É a dialética umbandista perdendo terreno para a demagogia solerte!
É nesta hora, repetimos, que se faz sentir a falta de um órgão de cúpula estadual para indicar seus candidatos, autênticos umbandistas, de inegáveis méritos. Somente assim a Umbanda ver-se-ia livre dos aventureiros de todos os matizes; dos pseudos lideres e dos chefes frustrados que agem de socapa (de maneira disfarçada) por lhes ter fugido das mãos a afortunosa ensancha (liberdade) de empunhar o cetro de sonhado encanto; dos tartufos (hipócritas) e dos bifrontes (que tem duas caras) que se bandeiam para as hostes dos despeitados dificultando o trabalho hercúleo de uma minoria de abnegados de respeitáveis credenciais.
Todavia a comunidade umbandista, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos, através dos dirigentes esclarecidos das Tendas e Terreiros, não se deixará embair (enganar) pelas promessas dos demagogos.
Ela sabe, tanto quanto nós, por que tais espécimes são visceralmente contrários à criação de um órgão de cúpula.
De qualquer maneira, porém, a organização controladora virá por que a ordem emana das camadas superiores.

Apesar da criação de diversos órgãos de cúpula, pouca coisa mudou desde então. Os falsos lideres continuam pululando e tirando proveito da vaidade cada vez maior dos chefes de terreiro que buscam sempre migalhas de poder para inflar o seu ego.
O número 31, de outubro de 1968, da Revista Realidade trazia como chamada de capa: Uma fé misteriosa - Umbanda. Na página 156 aparecia em destaque: Baixou o Santo! Marcos de Castro escreveu na abertura da reportagem de nove páginas:

Quando o santo baixa, num terreiro, centenas de pessoas entram em transe. É uma sessão de Umbanda, hoje religião oficial de milhões de brasileiros negros e brancos, de todas as classes. Para a maioria, porém, continua sendo um mistério.